{"id":10127,"date":"2025-07-10T14:55:49","date_gmt":"2025-07-10T17:55:49","guid":{"rendered":"https:\/\/fenati.org.br\/?p=10127"},"modified":"2025-07-11T09:17:39","modified_gmt":"2025-07-11T12:17:39","slug":"caso-cm-desvalorizacao-profissional-risco-empresas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/caso-cm-desvalorizacao-profissional-risco-empresas\/","title":{"rendered":"Caso C&#038;M: Desvaloriza\u00e7\u00e3o profissional \u00e9 o maior risco para empresas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Desvaloriza\u00e7\u00e3o profissional &#8211;<\/strong> Nesta sexta-feira (04), a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pol%C3%ADcia_Civil_do_Estado_de_S%C3%A3o_Paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">Pol\u00edcia Civil<\/a> de S\u00e3o Paulo prendeu um profissional de TI suspeito de participar de um ataque hacker que exp\u00f4s dados sigilosos de clientes banc\u00e1rios, em um caso envolvendo a empresa de software C&amp;M.<\/p>\n<p>O trabalhador ocupava uma fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica no suporte, por\u00e9m recebia um sal\u00e1rio baixo. O incidente revelou n\u00e3o apenas fragilidades de seguran\u00e7a cibern\u00e9tica, mas tamb\u00e9m um problema mais estrutural e silencioso: a maneira como muitas empresas de tecnologia tratam seus trabalhadores. Em outras palavras, exp\u00f4s que a desvaloriza\u00e7\u00e3o profissional \u00e9 em si um enorme risco corporativo, muitas vezes subestimado.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/fenati.org.br\/en\/stf-divergem-sobre-suspensao-de-processos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">LEIA: Pejotiza\u00e7\u00e3o: ministros do STF divergem sobre suspens\u00e3o de processos<\/a><\/strong><\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da C&amp;M, os relatos de empregados evidenciam um hist\u00f3rico de desrespeito a direitos trabalhistas. Entre os problemas apontados pelos funcion\u00e1rios da empresa est\u00e3o: Recusa em negociar a Participa\u00e7\u00e3o nos Lucros e Resultados (PLR) com o sindicato, descumprindo a Conven\u00e7\u00e3o Coletiva de Trabalho da categoria; Falta de transpar\u00eancia na gest\u00e3o do banco de horas, gerando inseguran\u00e7a sobre as compensa\u00e7\u00f5es e preju\u00edzos aos trabalhadores; Den\u00fancias de ass\u00e9dio moral e cobran\u00e7as excessivas por metas, criando um clima de press\u00e3o constante; e um ambiente marcado por jornadas exaustivas e sobrecarga cont\u00ednua, levando muitos ao limite do cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>O Sindpd-SP (Sindicato dos Trabalhadores em TI de S\u00e3o Paulo) j\u00e1 tentou abrir negocia\u00e7\u00f5es com a C&amp;M, sem sucesso. A postura da empresa de ignorar a conven\u00e7\u00e3o coletiva e se recusar a dialogar demonstra falta de respeito pelos profissionais. Em suma, a empresa criou um terreno f\u00e9rtil para insatisfa\u00e7\u00e3o interna muito antes do ataque em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta da C&amp;M ap\u00f3s o vazamento deixou a desejar. Em vez de fazer uma autocr\u00edtica honesta sobre suas vulnerabilidades \u2014 tanto do ponto de vista t\u00e9cnico quanto humano \u2014 a tend\u00eancia da empresa foi afastar responsabilidades e tratar o epis\u00f3dio como um \u201ccaso isolado\u201d. Essa falta de disposi\u00e7\u00e3o em reconhecer problemas internos \u00e9 um caminho quase garantido para a repeti\u00e7\u00e3o de erros no futuro.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o encarar de frente as falhas de gest\u00e3o e cultura, a empresa perde a oportunidade de corrigir o curso e prevenir novas ocorr\u00eancias. Ignorar o sintoma n\u00e3o cura a doen\u00e7a: reduzir tudo a um incidente pontual significa fechar os olhos para fatores sist\u00eamicos que contribu\u00edram para que algo assim acontecesse.<\/p>\n<p>\u00c9 importante enfatizar que nenhuma dessas circunst\u00e2ncias justificam que um trabalhador venda informa\u00e7\u00f5es ou se envolva em atividades criminosas. N\u00e3o h\u00e1 desculpa para deliberadamente \u201cdestrancar a porta\u201d da empresa para um ataque externo \u2013 quem faz isso precisa ser responsabilizado individualmente por seus atos. Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio entender o conjunto de fatores que tornam esse tipo de falha mais prov\u00e1vel. Todo sistema de seguran\u00e7a pode ser minado por dentro se as pessoas falharem, seja por mal\u00edcia ou por desmotiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deve-se punir o comportamento il\u00edcito e ao mesmo tempo questionar o contexto que pode ter levado um profissional a tamanho ponto de ruptura. Seguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 firewall e senha forte; \u00e9 tamb\u00e9m cultura, clima organizacional e gest\u00e3o competente. E nesses aspectos, a C&amp;M claramente dava sinais de fragilidade.<\/p>\n<p>Um ditado muito citado em TI \u00e9 que \u201ca cadeia \u00e9 t\u00e3o forte quanto seu elo mais fraco\u201d. Em seguran\u00e7a da informa\u00e7\u00e3o, esse elo costuma ser o fator humano. A melhor infraestrutura tecnol\u00f3gica do mundo falha se as pessoas que a operam estiverem desengajadas ou descuidadas. Seguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de ferramentas, mas um workflow e uma cultura organizacional que envolve todos os stakeholders.<\/p>\n<p>Quando um profissional de dentro participa de um ataque, fica evidente que de nada adiantaram os sistemas de defesa externa naquele momento \u2013 o \u201cinimigo\u201d j\u00e1 estava dentro dos port\u00f5es. Empresas de tecnologia precisam, portanto, ampliar o conceito de seguran\u00e7a: n\u00e3o se trata s\u00f3 de evitar invas\u00f5es externas, mas de blindar o maior patrim\u00f4nio da organiza\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as pessoas que fazem tudo funcionar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o gritante em ver empresas investindo milh\u00f5es em sistemas de seguran\u00e7a de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o \u2013 firewalls, criptografia avan\u00e7ada, servidores novos \u2013 enquanto tratam sua equipe como um custo a ser cortado. Segundo dados da consultoria IDC, as empresas brasileiras devem investir cerca de US$ 2,1 bilh\u00f5es em seguran\u00e7a da informa\u00e7\u00e3o neste ano, um salto de aproximadamente 13% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Trata-se de um crescimento expressivo nos or\u00e7amentos para tecnologia. Mas quanto desse investimento est\u00e1 sendo direcionado \u00e0s pessoas? Quanto pretendem investir em sal\u00e1rios decentes, capacita\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o profissional?<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, os n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o animadores. Por exemplo, o sal\u00e1rio m\u00e9dio dos profissionais de TI no Brasil teve aumento em torno de 6,4% ao ano na \u00faltima d\u00e9cada \u2013 ritmo bem inferior ao crescimento dos gastos tecnol\u00f3gicos. Da mesma forma, o investimento m\u00e9dio anual em treinamento por colaborador no Brasil \u00e9 de apenas R$ 1.222 (cerca de US$ 250), valor insignificante perto do que se gasta com equipamentos e softwares de seguran\u00e7a. Enquanto a atualiza\u00e7\u00e3o do parque tecnol\u00f3gico \u00e9 vista como \u201cinvestimento\u201d, a folha de pagamento continua sendo tratada como \u201cdespesa\u201d. Essa miopia corporativa cobra seu pre\u00e7o: profissionais desvalorizados tendem a se descomprometer, e a seguran\u00e7a acaba enfraquecida de dentro para fora.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta erguer muralhas medievais se o port\u00e3o principal est\u00e1 destrancado \u2014 ou, pior, se o porteiro est\u00e1 t\u00e3o maltratado que decide ele mesmo destranc\u00e1-lo ou n\u00e3o se importar que est\u00e1 aberto. Em outras palavras, se a empresa negligencia quem guarda a chave, todo o resto do fortificado se torna irrelevante. Os milh\u00f5es gastos em solu\u00e7\u00f5es de ciberseguran\u00e7a n\u00e3o compensam a falta de engajamento e \u00e9tica de um time desmotivado.<\/p>\n<p>Empresas que enxergam seus profissionais apenas como n\u00fameros acabam criando \u201cgaps\u201d em sua pr\u00f3pria estrutura. Cada trabalhador desvalorizado ou exausto \u00e9 como um sistema operando abaixo da capacidade: sujeito a erros cr\u00edticos, brechas de seguran\u00e7a, falta de comprometimento e outras falhas que nem o melhor antiv\u00edrus ou ferramenta de monitoramento consegue cobrir.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, estudos de seguran\u00e7a indicam que grande parte dos incidentes tem origem interna \u2013 um relat\u00f3rio global de 2024 revelou que 83% das organiza\u00e7\u00f5es reportaram pelo menos um ataque originado de insiders (isto \u00e9, de dentro da empresa) no \u00faltimo ano. Isso refor\u00e7a que o verdadeiro risco muitas vezes nasce dentro das corpora\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o fora.<\/p>\n<p>No fim das contas, tecnologia n\u00e3o funciona sozinha. Sistemas de seguran\u00e7a podem bloquear invas\u00f5es externas, mas n\u00e3o blindam o ativo mais importante de qualquer organiza\u00e7\u00e3o: as pessoas que escrevem os c\u00f3digos, mant\u00eam os sistemas, atendem os clientes e fazem tudo acontecer. Quando a cultura interna est\u00e1 contaminada pela desvaloriza\u00e7\u00e3o, o maior perigo para a empresa deixa de ser o hacker desconhecido e passa a ser a corros\u00e3o que vem de dentro.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa o tamanho do or\u00e7amento em seguran\u00e7a se quem deveria defend\u00ea-lo est\u00e1 fragilizado, mal pago e desmotivado. O trabalhador \u00e9 o sistema operacional de qualquer empresa \u2014 e quando ele \u201ctrava\u201d, tudo para.<\/p>\n<p><strong><em>Por Emerson Morresi, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores de Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o (Fenati) e Secret\u00e1rio Geral do Sindpd-SP<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/opiniao\/caso-cm-mostra-como-a-desvalorizacao-e-o-maior-risco-para-as-empresas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\"><strong>*Texto publicado originalmente pela revista Carta Capital<\/strong><\/a><\/p>\n<p><em><strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Freepik\/Drazen Zigic)<\/strong><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o importa o tamanho do or\u00e7amento em seguran\u00e7a se quem deveria defend\u00ea-lo est\u00e1 fragilizado, mal pago e desmotivado<\/p>","protected":false},"author":6,"featured_media":10128,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[13],"class_list":["post-10127","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sindicatos-de-ti","tag-sindical"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10127"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10129,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10127\/revisions\/10129"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}