{"id":15812,"date":"2026-03-02T10:54:52","date_gmt":"2026-03-02T13:54:52","guid":{"rendered":"https:\/\/fenati.org.br\/?p=15812"},"modified":"2026-03-02T15:24:19","modified_gmt":"2026-03-02T18:24:19","slug":"opiniao-ao-falar-de-preguica-folha-desrespeita-o-trabalhador-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/opiniao-ao-falar-de-preguica-folha-desrespeita-o-trabalhador-brasileiro\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Ao falar de \u2018pregui\u00e7a\u2019, Folha desrespeita o trabalhador brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Trabalhador brasileiro \u2013<\/strong> Para desgosto de quem havia tirado o fim de semana para descansar, a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Folha_de_S.Paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">Folha<\/a> manchetou, no domingo passado, que o &#8220;brasileiro trabalha menos que a m\u00e9dia mundial&#8221; \u2014 e atribuiu a conclus\u00e3o, no papel, no site e nas redes, a &#8220;ranking&#8221;\/&#8221;rankings&#8221; a partir de um estudo do economista Daniel Duque, do FGV Ibre.<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o publicada no jornal, por si s\u00f3, j\u00e1 seria capaz de gerar questionamento. Mas havia mais pontos inflam\u00e1veis, como os topos dos rankings.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fenati.org.br\/ia-redefine-exigencias-profissionais-brasileiros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>LEIA: IA redefine compet\u00eancias exigidas de profissionais brasileiros j\u00e1 em 2026<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Num deles, But\u00e3o, Sud\u00e3o e Emirados \u00c1rabes eram primeiro, segundo e terceiro lugares em &#8220;horas trabalhadas semanais&#8221;, sem contexto adequado. &#8220;O ranking traz como l\u00edderes pa\u00edses onde a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista n\u00e3o \u00e9 considerada exemplo a ser seguido. Isso nem sequer foi levado em conta&#8221;, observou uma leitora.<\/p>\n<p>O jornal tamb\u00e9m reproduzia a ideia de que o brasileiro &#8220;nem pode ser considerado particularmente esfor\u00e7ado&#8221;. Isso tudo no meio da discuss\u00e3o, j\u00e1 acalorada, sobre escala 6&#215;1 e projetos de redu\u00e7\u00e3o de jornada laboral.<br \/>\nA frase foi colocada em d\u00favida por muitos leitores e ofendeu outros tantos. Um deles escreveu: &#8220;Ent\u00e3o, o trabalhador do But\u00e3o \u00e9 mais esfor\u00e7ado que o brasileiro? O que isso significa? O trabalhador da Folha \u00e9 mais pregui\u00e7oso? N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o empenhado assim?&#8221;<\/p>\n<p>Rafael Cariello, rep\u00f3rter especial da Folha que assina o texto, reconhece que houve problemas. &#8220;Primeiro, deixe-me admitir um erro que cometi logo na abertura do texto da reportagem. Eu n\u00e3o devia ter escrito a segunda frase do primeiro par\u00e1grafo. A frase dizia sobre o trabalhador brasileiro: \u2018Nem pode ser considerado particularmente esfor\u00e7ado\u2019, em compara\u00e7\u00e3o com trabalhadores de outros pa\u00edses, a partir dos crit\u00e9rios da pesquisa do Daniel Duque. Embora mais tarde na reportagem eu v\u00e1 explicar o que entendo por \u2018esfor\u00e7o\u2019, fazendo refer\u00eancia aos c\u00e1lculos do Duque, a frase dita assim, logo no in\u00edcio do texto, sem explica\u00e7\u00e3o ou qualifica\u00e7\u00e3o maior, \u00e9 moralizante. Pode ter um efeito ofensivo sobre o leitor, e eu vi que teve. Fa\u00e7o aqui um pedido de desculpas&#8221;, afirma ele.<br \/>\n&#8220;At\u00e9 porque o esfor\u00e7o n\u00e3o se mede apenas no sentido t\u00e9cnico tratado mais \u00e0 frente no texto. Ele se mede pelo tempo perdido no tr\u00e2nsito, dedicado ao trabalho dom\u00e9stico e aos estudos, pelo menos \u2014o que infelizmente eu s\u00f3 deixo claro no segundo texto da edi\u00e7\u00e3o, sobre o trabalho feminino&#8221;, diz o rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>Houve, da parte do jornal (nunca \u00e9 demais lembrar que, da pauta \u00e0 edi\u00e7\u00e3o, o trabalho \u00e9 coletivo), tamb\u00e9m um problema s\u00e9rio de tradu\u00e7\u00e3o. Assim como &#8220;esfor\u00e7o&#8221;, &#8220;esperado&#8221; tinha sentido pr\u00f3prio e &#8220;ranking&#8221; n\u00e3o seria bem um ranking. Mas as tabelas tipo as de campeonato dificultavam a conclus\u00e3o de que n\u00e3o havia ali um &#8220;p\u00f3dio&#8221;.<\/p>\n<p>O economista Daniel Duque, autor do levantamento, afirma que &#8220;n\u00e3o existe ju\u00edzo de valor&#8221; da parte dele ou do estudo. &#8220;As pessoas e a sociedade t\u00eam escolhas leg\u00edtimas em si. Uma sociedade pode preferir mais ou menos lazer, n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com isso&#8221;, afirma, a respeito de outro ponto pol\u00eamico do texto da Folha, segundo o qual, &#8220;para Duque, o que provavelmente explica o desvio brasileiro \u00e9 uma quest\u00e3o cultural, uma prefer\u00eancia por maior quantidade de lazer&#8221; (e mais uma palavra amb\u00edgua: &#8220;desvio&#8221;). &#8220;Esse \u00e9 um estudo de mensura\u00e7\u00e3o&#8221;, define Duque.<\/p>\n<p>Autor da coluna Econometria F\u00e1cil, na Folha, Victor Rangel entrou no debate via Instagram, ainda no domingo. Ele criticava as conclus\u00f5es e informava que replicara a an\u00e1lise de Duque, com os mesmos dados, &#8220;e o resultado se inverteu completamente&#8221;.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed tamb\u00e9m havia problemas, porque a checagem de Rangel na realidade n\u00e3o replicava a an\u00e1lise. Alertado sobre a quest\u00e3o pelo rep\u00f3rter e pelo pesquisador, Rangel, mais tarde, publicou outro v\u00eddeo, dessa vez na Folha, em que sustentava que &#8220;a conversa est\u00e1 longe de uma conclus\u00e3o&#8221;. &#8220;Quando soltei o texto da Folha os resultados foram, sim, replicados, mas quando soltei meu v\u00eddeo no Instagram, um dia antes, eu realmente tinha feito algo diferente&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Sobre a necessidade de sinalizar essas mudan\u00e7as, o que n\u00e3o foi feito, ele responde: &#8220;Concordo que, por transpar\u00eancia, acho que vale [sinalizar], porque o [primeiro] v\u00eddeo viralizou, apesar de n\u00e3o ser para a Folha&#8221;. Mas afirma que &#8220;as conclus\u00f5es s\u00e3o as mesmas&#8221;.<\/p>\n<p>No estudo de Duque, publicado ap\u00f3s a reportagem, ele inclui resposta a Rangel e afirma que o exerc\u00edcio do colega &#8220;pode gerar interpreta\u00e7\u00e3o enganosa&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do problema vocabular e da pol\u00eamica acad\u00eamica, o material revela um olhar viciado do jornal para a quest\u00e3o trabalhista.<\/p>\n<p>A Folha deixou em segundo plano a parte do estudo que mostrava que as brasileiras &#8220;se aproximam de padr\u00e3o mundial de horas trabalhadas&#8221;. Num texto menor e mais escondido de Cariello, duas hist\u00f3rias contavam tantas outras.<\/p>\n<p>Sara, 24, trabalha desde os 14, &#8220;gasta uma hora de ida, outra de volta para casa, numa escala 6&#215;1&#8221; e cursa a segunda faculdade. Raphaela, 23, trabalha no telemarketing mais de oito horas por dia e faz hora extra. Gasta mais de tr\u00eas horas nos trajetos de ida e volta.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o de Sara e Raphaela merecia um olhar mais detido. O que dados sobre mulheres e arranjos trabalhistas no pa\u00eds contam a respeito dos apuros demogr\u00e1ficos de primeiro mundo em que o Brasil se meteu antes de fazer o proverbial bolo crescer?<\/p>\n<p>Pergunta, ali\u00e1s, n\u00e3o falta. Como a elei\u00e7\u00e3o de 2026 despertou a pauta, dormente h\u00e1 d\u00e9cadas nos escaninhos da esquerda? O que viu nela o presidente da C\u00e2mara, Hugo Motta (Republicanos-PB), at\u00e9 aqui insuspeito de apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria? Como esses interesses se relacionam com a disparada dos trabalhadores PJ, a queda no n\u00famero de empregadores ou o sonho de ter neg\u00f3cio pr\u00f3prio? \u00c9 bastante trabalho.<\/p>\n<p><em><strong>Por Alexandra Moraes \u2013 Ombudsman, Jornalista e quadrinista, \u00e9 ombudsman da Folha. J\u00e1 foi secret\u00e1ria-assistente de Reda\u00e7\u00e3o, editora de Diversidade e editora-adjunta de Especiais e Ilustrada<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>*Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Freepik)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ombudsman aponta erro moralizante, falhas de tradu\u00e7\u00e3o e falta de contexto em reportagem sobre produtividade do trabalhador brasileiro<\/p>","protected":false},"author":6,"featured_media":15814,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[13],"class_list":["post-15812","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-sindical"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15812","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15812"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15812\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15815,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15812\/revisions\/15815"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}