{"id":17548,"date":"2026-04-15T12:20:11","date_gmt":"2026-04-15T15:20:11","guid":{"rendered":"https:\/\/fenati.org.br\/?p=17548"},"modified":"2026-04-15T16:20:41","modified_gmt":"2026-04-15T19:20:41","slug":"ia-amplia-producao-cultural-fragiliza-criadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/ia-amplia-producao-cultural-fragiliza-criadores\/","title":{"rendered":"IA amplia produ\u00e7\u00e3o cultural enquanto fragiliza criadores"},"content":{"rendered":"<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o cultural &#8211;<\/strong> A economia criativa global continua em expans\u00e3o, mas os profissionais do setor n\u00e3o acompanham esse crescimento. Essa \u00e9 a principal conclus\u00e3o do relat\u00f3rio \u201cRe|Shaping Policies for Creativity\u201d, divulgado recentemente pela <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Organiza%C3%A7%C3%A3o_das_Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas_para_a_Educa%C3%A7%C3%A3o,_a_Ci%C3%AAncia_e_a_Cultura\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Unesco<\/a>. Com base em dados de 133 pa\u00edses, o estudo aponta uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural acelerada pela digitaliza\u00e7\u00e3o e pela intelig\u00eancia artificial, redefinindo quem lucra, quem perde e quem exerce controle sobre a produ\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Produzir, distribuir e consumir conte\u00fado nunca foi t\u00e3o acess\u00edvel. Em 2023, o mercado global de bens culturais alcan\u00e7ou US$ 254 bilh\u00f5es. No entanto, esse avan\u00e7o vem acompanhado de maior precariza\u00e7\u00e3o do trabalho criativo. O levantamento destaca a escassez de empregos est\u00e1veis, modelos de remunera\u00e7\u00e3o fr\u00e1geis e a concentra\u00e7\u00e3o de valor nas plataformas digitais. Como resultado, a entidade projeta uma redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 24% na receita dos criadores at\u00e9 2028, impulsionada pela IA e pelo uso n\u00e3o autorizado de conte\u00fados.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fenati.org.br\/en\/tensoes-globais-demanda-energia-data-centers-brasil\/\"><strong>LEIA: Tens\u00f5es globais e demanda por energia abrem espa\u00e7o para data centers no Brasil<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m aponta que as redes sociais deixaram de ser apenas espa\u00e7os de intera\u00e7\u00e3o, passando a influenciar temas como democracia, bem-estar e regula\u00e7\u00e3o global. Crescem as preocupa\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 sa\u00fade mental, \u00e0 governan\u00e7a das plataformas e \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio dialoga diretamente com os desafios enfrentados pelo jornalismo contempor\u00e2neo. Quest\u00f5es como queda de receita, desintermedia\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de valor nas plataformas refletem uma crise que j\u00e1 dura ao menos duas d\u00e9cadas. Com a chegada da IA generativa, a situa\u00e7\u00e3o se agrava: al\u00e9m de perderem controle sobre seus conte\u00fados, as reda\u00e7\u00f5es veem seu material ser reutilizado e redistribu\u00eddo sem gerar tr\u00e1fego para a fonte original, fen\u00f4meno que o relat\u00f3rio classifica como desvaloriza\u00e7\u00e3o da criatividade humana.<\/p>\n<p>A cultura segue sendo um ativo econ\u00f4mico estrat\u00e9gico, tanto para inova\u00e7\u00e3o quanto para o desenvolvimento. No entanto, o sistema que a sustenta est\u00e1 transferindo valor dos criadores para intermedi\u00e1rios tecnol\u00f3gicos. O resultado \u00e9 um paradoxo: h\u00e1 mais produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, mas menor remunera\u00e7\u00e3o, o que compromete um dos pilares das sociedades.<\/p>\n<p>Apesar disso, a intelig\u00eancia artificial tamb\u00e9m apresenta benef\u00edcios claros. A tecnologia acelera processos e permite que mais pessoas produzam conte\u00fado em escala e com qualidade. Hoje, tarefas que antes exigiam equipes inteiras podem ser realizadas por um \u00fanico profissional. O relat\u00f3rio reconhece esse potencial, destacando que as ferramentas digitais podem democratizar o acesso \u00e0 cultura e estimular novas formas de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, o aumento exponencial da produ\u00e7\u00e3o tende a reduzir o valor individual do conte\u00fado, processo intensificado pela tecnologia. Segundo o estudo, 79% dos profissionais culturais enxergam a IA como uma amea\u00e7a \u00e0 sua subsist\u00eancia, n\u00e3o por rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, mas pela percep\u00e7\u00e3o de perda de controle econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O ponto central, portanto, n\u00e3o est\u00e1 na capacidade de criar, mas na habilidade de capturar valor. Sistemas de IA s\u00e3o alimentados por conte\u00fados j\u00e1 existentes, muitas vezes sem remunera\u00e7\u00e3o adequada, e geram produtos derivados que competem com os pr\u00f3prios criadores. Nesse modelo, quem produz acaba sendo o elo mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o n\u00e3o se resume ao uso adequado da tecnologia. O relat\u00f3rio identifica uma lacuna regulat\u00f3ria significativa: embora existam 148 leis relacionadas \u00e0 intelig\u00eancia artificial em 128 pa\u00edses, apenas uma trata especificamente da cultura. Como costuma ocorrer, a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica supera o ritmo da regula\u00e7\u00e3o, favorecendo quem opera em escala, e n\u00e3o necessariamente quem cria.<\/p>\n<p>Outro ponto de alerta \u00e9 o risco \u00e0 diversidade cultural. A IA j\u00e1 influencia diretamente a forma como conte\u00fados s\u00e3o produzidos e consumidos, guiada por m\u00e9tricas de engajamento. Al\u00e9m disso, os modelos s\u00e3o majoritariamente treinados com dados do hemisf\u00e9rio norte ocidental, o que pode levar \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es est\u00e9ticos e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de narrativas.<\/p>\n<h4>Uma tecnologia contradit\u00f3ria<\/h4>\n<p>A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o \u00e9 neutra nem intrinsecamente positiva ou negativa. O cen\u00e1rio descrito evidencia a necessidade de regras mais claras sobre remunera\u00e7\u00e3o, transpar\u00eancia no uso de dados e prote\u00e7\u00e3o aos criadores. Sem isso, a tend\u00eancia \u00e9 de aumento da produ\u00e7\u00e3o e da circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, mas com menos profissionais conseguindo viver dessa atividade.<\/p>\n<p>No jornalismo, os impactos s\u00e3o particularmente vis\u00edveis. A press\u00e3o por produtividade em tempo real se soma \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das equipes e \u00e0 depend\u00eancia crescente de ferramentas automatizadas. A IA surge como um recurso amb\u00edguo: amplia a capacidade produtiva, mas tamb\u00e9m incentiva pr\u00e1ticas arriscadas, especialmente em ambientes de alta press\u00e3o. Com modelos econ\u00f4micos fragilizados, os efeitos extrapolam o setor e atingem a pr\u00f3pria democracia, reduzindo a investiga\u00e7\u00e3o, a diversidade e ampliando o risco de desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma poss\u00edvel sa\u00edda para a economia criativa envolve a cria\u00e7\u00e3o de mecanismos obrigat\u00f3rios de remunera\u00e7\u00e3o pelo uso de conte\u00fados em sistemas de IA. O relat\u00f3rio tamb\u00e9m aponta a fragilidade dos atuais modelos de propriedade intelectual, indicando que, sem mudan\u00e7as estruturais, qualquer solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 apenas paliativa.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o, ao que tudo indica, ser\u00e1 inevit\u00e1vel, mas exige equil\u00edbrio. Um excesso de regras pode limitar a inova\u00e7\u00e3o, enquanto a aus\u00eancia delas tende a consolidar abusos. O desafio est\u00e1 em estabelecer diretrizes claras sobre o uso de dados no treinamento de IA, garantir transpar\u00eancia e definir responsabilidades sobre os conte\u00fados gerados.<\/p>\n<p>O debate n\u00e3o passa pela rejei\u00e7\u00e3o da tecnologia, mas pelo seu uso estrat\u00e9gico. Isso envolve o desenvolvimento de compet\u00eancias t\u00e9cnicas e pensamento cr\u00edtico sobre seus impactos, riscos e implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas.<\/p>\n<p>Talvez o maior desafio esteja em repensar a l\u00f3gica de distribui\u00e7\u00e3o. As plataformas se consolidaram como intermedi\u00e1rias dominantes, e equilibrar esse poder depende de decis\u00f5es pol\u00edticas. Embora a IA opere al\u00e9m das fronteiras nacionais, os direitos dos criadores ainda est\u00e3o vinculados a elas.<\/p>\n<p><em><strong>(Com informa\u00e7\u00f5es de It Forum)<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Freepik\/alvarort)<\/strong><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relat\u00f3rio internacional indica que valor econ\u00f4mico migra para intermedi\u00e1rios digitais, reduzindo o controle de criadores e empresas<\/p>","protected":false},"author":11,"featured_media":17551,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[35],"tags":[13],"class_list":["post-17548","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ti","tag-sindical"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17548"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17548\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17552,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17548\/revisions\/17552"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17551"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}