{"id":18489,"date":"2026-05-11T10:15:45","date_gmt":"2026-05-11T13:15:45","guid":{"rendered":"https:\/\/fenati.org.br\/?p=18489"},"modified":"2026-05-11T11:17:23","modified_gmt":"2026-05-11T14:17:23","slug":"opiniao-cem-anos-ford-brasil-reducao-da-jornada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/opiniao-cem-anos-ford-brasil-reducao-da-jornada\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Cem anos depois de Ford, Brasil ainda debate redu\u00e7\u00e3o da jornada"},"content":{"rendered":"<p><strong>Redu\u00e7\u00e3o da jornada &#8211;<\/strong> Ainda lembro o que ouvi de um jornalista da velha guarda quando comecei a trabalhar: &#8220;mais do que o que voc\u00ea faz, importa o tempo que passa parecendo fazer algo importante&#8221;. Arregalei os olhos: era a absoluta ant\u00edtese do que tinha aprendido nos meus anos de Escola Alem\u00e3, onde, \u00e0 boa maneira germ\u00e2nica, era incutida a l\u00f3gica da produtividade e efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Infelizmente, confirmei que era mesmo assim que as coisas funcionavam em muitas empresas \u2014 entre cafezinhos, risadas, distra\u00e7\u00f5es e conversas de corredor, passava-se ali, s\u00f3 porque sim, demasiado tempo al\u00e9m do que seria necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fenati.org.br\/en\/demissoes-ligadas-a-ia-nao-geram-retorno-financeiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>LEIA: Demiss\u00f5es ligadas \u00e0 IA n\u00e3o geram retorno financeiro, alerta Gartner<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Lembrei-me disto a prop\u00f3sito do fim da escala 6&#215;1, um tema quente ao qual o Brasil chega com um s\u00e9culo de atraso. Foi precisamente em 1926 que Henry Ford, o vision\u00e1rio que revolucionou a ind\u00fastria autom\u00f3vel e os m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o em massa, definiu como regra na sua empresa a semana de cinco dias, estabelecendo um dia de descanso extra para 55 mil empregados.<\/p>\n<p>Em 1914, ele j\u00e1 havia adotado a jornada de oito horas e o sal\u00e1rio de US$ 5 por dia, uma enorme inova\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca. Ford via muito \u00e0 frente: n\u00e3o olhava estas mudan\u00e7as como custos, mas antes como investimentos. Considerava-as essenciais para motivar a sua preciosa m\u00e3o de obra e estimular a produ\u00e7\u00e3o, enquanto reduzia a alta rotatividade do pessoal.<\/p>\n<p>Os jornais da \u00e9poca testemunharam a suspei\u00e7\u00e3o com que as medidas foram vistas pelos cr\u00edticos, que condenaram o neg\u00f3cio de Ford \u00e0 ru\u00edna e anteciparam a desordem nas classes trabalhadoras. Cem anos depois, encontramos o mesmo tom pessimista no Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s diferentes propostas pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o da escala 6&#215;1.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem tema uma quebra da competitividade das empresas brasileiras, e at\u00e9 quem, como Marcos Pereira, do Republicanos, sublinhe que &#8220;\u00f3cio a mais faz mal&#8221; e que &#8220;o povo fica mais exposto ao \u00e1lcool, a drogas e a jogos de azar&#8221;. Um alegado perigo que, visto deste lado do Atl\u00e2ntico (num pa\u00eds onde foi institu\u00eddo o limite das oito horas de trabalho di\u00e1rio em 1919 e a escala 5&#215;2 se consolidou desde o fim da d\u00e9cada de 1990, quando foram impostas as 40 horas semanais), chega a dar vontade de rir\u2026<\/p>\n<p>Reparem: na Europa, j\u00e1 em 1936 a Fran\u00e7a definia a regra das 40 horas semanais. Hoje, na Uni\u00e3o Europeia, a m\u00e9dia do tempo de trabalho est\u00e1 nas 37 horas semanais (os Pa\u00edses Baixos lideram com 31,5 horas), e a discuss\u00e3o j\u00e1 galgou mais um degrau. O tema agora \u00e9 o salto para a semana 4&#215;3, um modelo a ser testado com sucesso. E at\u00e9 o governo portugu\u00eas n\u00e3o exclui a possibilidade de o aplicar \u00e0 fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que j\u00e1 trabalha s\u00f3 35 horas semanais.<\/p>\n<p>Olhando para o caminho percorrido na Europa, \u00e9 poss\u00edvel retirar algumas li\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 que estas evolu\u00e7\u00f5es t\u00eam de ser acompanhadas por uma reorganiza\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de trabalho e ganhos de produtividade, e uma nova lei pode servir de fator impulsionador destas melhorias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 certo que h\u00e1 ind\u00fastrias onde a mudan\u00e7a \u00e9 mais dif\u00edcil, como no com\u00e9rcio e servi\u00e7os, e por isso \u00e9 recomend\u00e1vel estabelecer um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o gradual. Mas algo \u00e9 claro: recusar este caminho \u00e9 mais ou menos como tentar parar o vento com as m\u00e3os \u2014n\u00e3o resolve, aumenta frustra\u00e7\u00f5es e desbarata ganhos. N\u00e3o h\u00e1 por que temer: est\u00e1 na hora de o Brasil reduzir o tempo de trabalho.<\/p>\n<p><em>Por <strong>Mafalda Anjos<\/strong> &#8211; Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, \u00e9 formada em direito e autora de livros como &#8216;Carta a um Jovem Decente&#8217;<\/em><\/p>\n<p><strong><em>*Texto publicado originalmente na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/mafalda-anjos\/2026\/05\/o-brasil-chega-um-seculo-atrasado-ao-5x2.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">Folha de S.Paulo<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p><em><strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil)<\/strong><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discuss\u00e3o sobre o fim da escala 6&#215;1 mostra atraso hist\u00f3rico do Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s jornadas de trabalho adotadas na Europa h\u00e1 d\u00e9cadas<\/p>","protected":false},"author":10,"featured_media":18490,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[13],"class_list":["post-18489","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-sindical"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18489"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18489\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18492,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18489\/revisions\/18492"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}