{"id":19990,"date":"2026-06-09T12:57:10","date_gmt":"2026-06-09T15:57:10","guid":{"rendered":"https:\/\/fenati.org.br\/burnout-brasil-com-alta-800-afastamentos-4-anos\/"},"modified":"2026-07-02T23:11:05","modified_gmt":"2026-07-03T02:11:05","slug":"burnout-brasil-com-alta-800-afastamentos-4-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/burnout-brasil-com-alta-800-afastamentos-4-anos\/","title":{"rendered":"Burnout dispara no Brasil, com alta de 800% nos afastamentos em 4 anos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Burnout &#8211; <\/strong>O n\u00famero de afastamentos por <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%ADndrome_de_burnout\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">burnout<\/a> no Brasil registrou crescimento expressivo nos \u00faltimos anos e refor\u00e7a a preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade mental dos trabalhadores. Dados do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social, obtidos com exclusividade pelo g1, mostram que os benef\u00edcios por incapacidade tempor\u00e1ria concedidos por esgotamento profissional passaram de 823 em 2021 para 7.595 em 2025, uma alta de aproximadamente 823%.<\/p>\n<p>O aumento tamb\u00e9m \u00e9 observado nos registros do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT). Entre 2021 e 2025, as den\u00fancias relacionadas \u00e0 sa\u00fade mental no ambiente de trabalho cresceram de 190 para 1.022, avan\u00e7o de cerca de 438%, equivalente a 832 novos registros.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/fenati.org.br\/en\/justica-burnout-doenca-ocupacional-condena-banco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>LEIA: Justi\u00e7a reconhece burnout como doen\u00e7a ocupacional e condena banco<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O cen\u00e1rio acompanha o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais em geral. Ap\u00f3s atingir um recorde hist\u00f3rico em 2024, o Brasil voltou a registrar n\u00fameros elevados em 2025, com mais de meio milh\u00e3o de licen\u00e7as concedidas por esse tipo de adoecimento.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, o governo federal anunciou a atualiza\u00e7\u00e3o da Norma Regulamentadora n\u00ba 1 (NR-1), que trata do gerenciamento de riscos psicossociais e prev\u00ea puni\u00e7\u00f5es a empresas por pr\u00e1ticas que afetem a sa\u00fade mental dos trabalhadores. A medida estava prevista para entrar em vigor em maio de 2025, mas foi adiada ap\u00f3s press\u00e3o de entidades empresariais e dever\u00e1 passar a valer neste ano.<\/p>\n<p>Especialistas afirmam que o crescimento dos casos n\u00e3o pode ser explicado por um \u00fanico fator. Quest\u00f5es como v\u00ednculos prec\u00e1rios, jornadas prolongadas, baixos sal\u00e1rios, metas dif\u00edceis de alcan\u00e7ar e press\u00e3o constante por resultados contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de ambientes de trabalho que favorecem o adoecimento mental.<\/p>\n<p>Os impactos da pandemia tamb\u00e9m continuam sendo sentidos. Apesar da redu\u00e7\u00e3o do desemprego e da informalidade, permanecem efeitos relacionados \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do ritmo de trabalho e ao uso massivo de tecnologias digitais. Soma-se a isso o fato de que a expans\u00e3o do emprego formal n\u00e3o foi acompanhada por melhorias equivalentes nas condi\u00e7\u00f5es laborais. Outro fator apontado \u00e9 o d\u00e9ficit de auditores fiscais, que limita a fiscaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Para especialistas, os n\u00fameros refletem n\u00e3o apenas um aumento dos casos, mas tamb\u00e9m uma maior capacidade de identificar e registrar o sofrimento ps\u00edquico relacionado ao trabalho.<\/p>\n<p>Segundo o psiquiatra Arthur Danila, Coordenador do Programa de Mudan\u00e7a de H\u00e1bito e Estilo de Vida (PROMEV) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da USP, o fen\u00f4meno resulta da combina\u00e7\u00e3o de diferentes fatores.<\/p>\n<p>\u201cO trabalho ficou mais acelerado, mais conectado, mais monitorado e mais competitivo. Ao mesmo tempo, passamos a reconhecer melhor que parte do sofrimento mental tem rela\u00e7\u00e3o direta com o ambiente ocupacional\u201d, afirma.<\/p>\n<p>De acordo com o especialista, houve uma piora objetiva das condi\u00e7\u00f5es psicossociais no ambiente profissional. Muitos trabalhadores convivem diariamente com alta cobran\u00e7a por resultados, inseguran\u00e7a econ\u00f4mica e pouco tempo para recupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica e emocional.<\/p>\n<p>Outro aspecto destacado \u00e9 a chamada jornada expandida invis\u00edvel. Mesmo fora do expediente, profissionais permanecem conectados por mensagens, e-mails e plataformas digitais, dificultando o descanso psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>\u201cO trabalhador contempor\u00e2neo vive mais conectado, mais monitorado, mais competitivo e com menos previsibilidade. \u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o muito t\u00f3xica\u201d, explica.<\/p>\n<p>Segundo Danila, esse estado cont\u00ednuo de alerta compromete a capacidade de recupera\u00e7\u00e3o do organismo. \u201cO sono piora, a irritabilidade aumenta, a concentra\u00e7\u00e3o cai. A fronteira entre trabalho e vida pessoal foi corro\u00edda. O descanso existe fisicamente, mas n\u00e3o mentalmente\u201d, diz.<\/p>\n<p>Desde 2022, o burnout passou a integrar a Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (CID-11), da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). A mudan\u00e7a fez com que o esgotamento profissional deixasse de ser tratado apenas como estresse e passasse a ser reconhecido como um fen\u00f4meno ocupacional relacionado ao trabalho.<\/p>\n<p>O burnout \u00e9 caracterizado por tr\u00eas dimens\u00f5es principais: exaust\u00e3o intensa, distanciamento mental ou cinismo em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho e redu\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia profissional.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se trata de usar o termo como r\u00f3tulo para qualquer sofrimento. \u00c9 preciso avaliar se os sintomas est\u00e3o diretamente relacionados ao contexto de trabalho\u201d, afirma o psiquiatra.<\/p>\n<p>Para o especialista, embora tenha ocorrido uma redu\u00e7\u00e3o parcial do estigma relacionado \u00e0 sa\u00fade mental, os casos que chegam aos servi\u00e7os especializados apresentam maior complexidade cl\u00ednica.<\/p>\n<p>\u201cMuitos pacientes apresentam ins\u00f4nia persistente, crises de ansiedade, sintomas depressivos e preju\u00edzo significativo na vida pessoal e familiar. O risco \u00e9 banalizar o burnout, mas \u00e9 ainda mais grave trat\u00e1-lo como fragilidade individual\u201d, diz Danila.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico tamb\u00e9m destaca que o problema provavelmente foi subnotificado durante muitos anos. \u201cHavia vergonha em associar adoecimento mental ao trabalho, tanto por parte dos trabalhadores quanto das empresas\u201d, aponta.<\/p>\n<p><strong>Legisla\u00e7\u00e3o e reconhecimento do burnout<\/strong><\/p>\n<p>Embora a inclus\u00e3o do burnout na CID-11 tenha ampliado a visibilidade do problema, o reconhecimento jur\u00eddico da condi\u00e7\u00e3o continua dependendo da comprova\u00e7\u00e3o de que o adoecimento est\u00e1 diretamente relacionado ao trabalho.<\/p>\n<p>A advogada trabalhista Nathalia Sequeira Coelho explica que a principal mudan\u00e7a foi interpretativa. \u201cA entrada do burnout na CID-11 \u00e9 importante, mas o reconhecimento jur\u00eddico depende da prova do nexo causal entre o trabalho e a doen\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Segundo a especialista, a comprova\u00e7\u00e3o pode envolver diagn\u00f3stico m\u00e9dico, relat\u00f3rios cl\u00ednicos, per\u00edcias, afastamentos previdenci\u00e1rios e provas das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como excesso de jornada, metas abusivas, ass\u00e9dio moral, ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es, mensagens, e-mails e testemunhas.<\/p>\n<p>\u201cA prova muitas vezes depende de testemunhas, e colegas ainda t\u00eam receio de se comprometer\u201d, afirma. \u201cAl\u00e9m disso, por se tratar de adoecimento ps\u00edquico, h\u00e1 discuss\u00e3o sobre fatores pessoais, o que exige demonstrar que o trabalho foi causa ou, ao menos, concausa relevante\u201d, completa.<\/p>\n<p>Quando fica comprovado o v\u00ednculo entre o adoecimento e a atividade profissional, o burnout pode ser equiparado a acidente de trabalho. Nesses casos, o trabalhador pode ter acesso a benef\u00edcios espec\u00edficos, estabilidade provis\u00f3ria e, eventualmente, indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Existem dois tipos de benef\u00edcio previdenci\u00e1rio para afastamentos relacionados \u00e0 sa\u00fade mental: o benef\u00edcio comum (B31), quando n\u00e3o h\u00e1 nexo ocupacional reconhecido, e o benef\u00edcio acident\u00e1rio (B91), quando a rela\u00e7\u00e3o com o trabalho \u00e9 comprovada.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 significativa. No caso do B91, o trabalhador tem direito \u00e0 estabilidade de 12 meses ap\u00f3s o retorno ao trabalho e \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o dos dep\u00f3sitos do FGTS durante o afastamento.<\/p>\n<p>\u201cO afastamento por si s\u00f3 n\u00e3o garante estabilidade. \u00c9 necess\u00e1rio comprovar a rela\u00e7\u00e3o entre o adoecimento e o trabalho\u201d, explica a advogada. \u201cMesmo quando o benef\u00edcio \u00e9 comum, a Justi\u00e7a pode reconhecer esse direito, se houver prova do nexo\u201d, completa.<\/p>\n<p>De acordo com Nathalia, tamb\u00e9m h\u00e1 um aumento na judicializa\u00e7\u00e3o dos casos envolvendo sa\u00fade mental. \u201cIsso n\u00e3o significa condena\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, mas uma tend\u00eancia de maior responsabiliza\u00e7\u00e3o quando h\u00e1 falha da empresa\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Fiscaliza\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o da NR-1<\/strong><\/p>\n<p>A atualiza\u00e7\u00e3o da NR-1 inclui riscos psicossociais entre os fatores sujeitos \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o trabalhista. Com a mudan\u00e7a, auditores poder\u00e3o verificar quest\u00f5es como metas excessivas, jornadas extensas, ass\u00e9dio moral, aus\u00eancia de suporte organizacional, conflitos interpessoais e condi\u00e7\u00f5es inadequadas de trabalho.<\/p>\n<p>A nova norma est\u00e1 em vigor desde 26 de maio. Desde ent\u00e3o, os chamados riscos psicossociais passaram a integrar de forma expl\u00edcita o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), tornando obrigat\u00f3ria a ado\u00e7\u00e3o de medidas preventivas contra situa\u00e7\u00f5es que possam provocar adoecimento psicol\u00f3gico entre trabalhadores.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, situa\u00e7\u00f5es como press\u00e3o excessiva, cobran\u00e7a abusiva por metas, jornadas prolongadas, ass\u00e9dio moral ou sexual, conflitos interpessoais, falhas de comunica\u00e7\u00e3o, aus\u00eancia de suporte e lideran\u00e7as despreparadas entram de forma expl\u00edcita no foco da fiscaliza\u00e7\u00e3o trabalhista.<\/p>\n<p>Com isso, o Minist\u00e9rio do Trabalho deixa de observar apenas m\u00e1quinas, equipamentos e acidentes f\u00edsicos e passa a avaliar tamb\u00e9m como o trabalho \u00e9 organizado dentro das empresas, incluindo jornadas, metas, cadeia de comando, m\u00e9todos de cobran\u00e7a e rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas.<\/p>\n<p><em><strong>(Com informa\u00e7\u00f5es de g1)<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Magnific\/DC Studio)<\/strong><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas apontam mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, press\u00e3o constante e maior reconhecimento do problema<\/p>","protected":false},"author":10,"featured_media":19991,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[13],"class_list":["post-19990","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-sindical"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19990","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19990"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19990\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20372,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19990\/revisions\/20372"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19991"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fenati.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}