Escala 6×1 – O presidente do Sindpd-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo) e fundador da Fenati (Federação Nacional dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação), Antonio Neto, participou nesta terça-feira (24) de audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados para debater propostas que tratam do fim da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho no Brasil.
Ele falou representando a CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros), entidade que também preside, e defendeu que a discussão seja conduzida com maturidade institucional – sem alarmismo econômico.
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Logo no início Neto afirmou que o debate sobre a jornada de trabalho costuma ser acompanhado por previsões exageradas de colapso econômico sempre que se tenta avançar em direitos trabalhistas.
“A cada tentativa de avanço civilizatório nas relações de trabalho, anuncia-se, com notável convicção, um cenário de colapso iminente… a véspera do ‘fim do mundo’. Com o tempo, esse recurso retórico deixa de impressionar e passa a revelar mais sobre quem o utiliza do que sobre o tema em discussão”, afirmou.
Durante a audiência, que discutiu a admissibilidade da PEC 8/25, da deputada Erika Hilton, e da PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes, Neto ressaltou que o tema exige diálogo e que o país já teve experiências anteriores de negociação sobre a redução da jornada. Para ele, agora é o momento de retomar esse espírito de construção coletiva.
“Este é um debate que exige maturidade institucional e compromisso com a construção. Não há espaço para interdições ideológicas. O Brasil já demonstrou que é capaz de avançar nesse tema com responsabilidade”, declarou.
O presidente do Sindpd criticou o uso recorrente de estudos alarmistas que apontam impactos negativos da redução da jornada, argumentando que esse tipo de abordagem prejudica um debate qualificado sobre o tema.
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“O problema não reside na existência de estudos, eles são parte legítima do processo democrático, mas na utilização reiterada do medo como método de persuasão. Quando o debate técnico é substituído por projeções catastróficas, perde-se um debate qualificado”, disse.
Reequilíbrio nas relações de trabalho
Neto também destacou que os trabalhadores brasileiros já passaram por uma série de mudanças estruturais nos últimos anos que trouxeram prejuízos a eles, como a reforma trabalhista e a reforma da Previdência, além de políticas voltadas à redução de custos empresariais. Portanto, discutir a jornada de trabalho neste momento representa um movimento de reequilíbrio nas relações entre capital e trabalho.
“Nos últimos anos, o país impôs uma série de sacrifícios por parte dos trabalhadores. O debate sobre a jornada de trabalho não pode ser tratado como uma ruptura. Ele se insere, na verdade, como um elemento de reequilíbrio”, afirmou.
O dirigente sindical também chamou atenção para as transformações tecnológicas que vêm alterando profundamente a organização da produção, como automação, digitalização e inteligência artificial. Segundo ele, os ganhos de produtividade dessas mudanças precisam se refletir em melhorias concretas na vida dos trabalhadores.
“Vivemos uma transformação tecnológica sem precedentes. A capacidade produtiva cresceu de forma exponencial. No entanto, a tradução desses ganhos em melhoria concreta das condições de vida permanece limitada. É essa assimetria que precisa ser enfrentada com responsabilidade”, declarou.
Exemplo do Sindpd
Como exemplo prático, Neto citou o setor de tecnologia da informação em São Paulo, que já opera há mais de uma década com jornada de 40 horas semanais por meio da Convenção Coletiva de Trabalho do Sindpd.
“O setor de tecnologia da informação em São Paulo, altamente competitivo e inserido na economia global, opera há mais de uma década com jornada de 40 horas e escala 5×2. Os resultados são conhecidos: expansão do setor, aumento da demanda por profissionais, crescimento da massa salarial e ganhos consistentes de produtividade”, destacou.
Para ele, a experiência demonstra que a reorganização da jornada de trabalho pode coexistir com crescimento econômico quando construída com diálogo e previsibilidade. “Um ambiente de trabalho que preserva a capacidade física e cognitiva dos trabalhadores tende a produzir melhores resultados”, acrescentou.
Impactos sociais
Ao tratar dos impactos sociais da jornada de trabalho, Neto destacou que a discussão vai além de números e planilhas e precisa considerar a realidade cotidiana dos trabalhadores, marcada por jornadas extensas, longos deslocamentos e responsabilidades familiares.
“Quando deslocamos o olhar das planilhas para a realidade concreta, o debate ganha outra dimensão. Falamos de pessoas que organizam suas vidas em torno de jornadas extensas, frequentemente combinadas com deslocamentos longos e responsabilidades familiares intensas”, afirmou.
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Nesse contexto, ele ressaltou que a organização do tempo de trabalho também afeta de forma particular as mulheres, que frequentemente acumulam múltiplas jornadas.
“Falamos, em especial, das mulheres, que acumulam múltiplas jornadas e cuja sobrecarga permanece invisibilizada em muitos diagnósticos econômicos”, disse.
Encerrando sua participação, Antonio Neto afirmou que a garantia de dois dias de descanso semanal vai além de uma questão trabalhista, envolvendo também saúde mental, convivência familiar e qualidade de vida da população.
“Após 38 anos sem alterações estruturais na jornada, o Brasil se depara com uma oportunidade de atualização com as transformações que já ocorreram na base produtiva. E nada, absolutamente nada, explica não avançarmos nesta pauta”, concluiu.
Assista à fala de Antonio Neto na íntegra:
(Foto: divulgação/CSB)