TI

Demissões aceleram no setor de tecnologia e levantam debate sobre papel da IA

Demissões – O avanço da inteligência artificial (IA) tem sido frequentemente citado por empresas de tecnologia para justificar cortes de pessoal em 2026. Ao mesmo tempo, o setor registra lucros expressivos e valorizações bilionárias, alimentando um debate sobre até que ponto a IA é, de fato, responsável pela onda de demissões que já atingiu cerca de 150 mil profissionais neste ano.

Dados da TrueUp, plataforma especializada em emprego e recrutamento, mostram que aproximadamente 150.000 trabalhadores foram afetados por desligamentos no setor de tecnologia em 2026. O ritmo equivale a cerca de 974 demissões por dia, uma velocidade 44% superior à observada no mesmo período do ano anterior.

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Justificativa baseada em IA divide opiniões

A associação entre inteligência artificial e redução de quadros ganhou força nos últimos meses, especialmente após empresas rentáveis passarem a relacionar cortes de pessoal ao avanço da tecnologia.

Um dos casos mais discutidos envolve a empresa de pagamentos Block. Depois de dispensar cerca de 4.000 funcionários no início de 2026, quase metade de sua equipe, o fundador Jack Dorsey declarou que as ferramentas de IA “estão viabilizando uma nova forma de trabalhar que muda fundamentalmente o que significa construir e operar uma empresa”.

Posteriormente, após questionamentos de usuários na rede social X, Dorsey admitiu que a companhia havia ampliado suas contratações além do necessário durante o período da pandemia.

A explicação também foi contestada pelo investidor Marc Andreessen. Em conversa com o podcaster e investidor Harry Stebbings, ele afirmou que a inteligência artificial estaria sendo utilizada como uma “desculpa bala de prata” para justificar reduções de equipes motivadas por outros fatores.

Segundo Andreessen: “Essencialmente, toda grande empresa está com excesso de pessoal. No mínimo 25%. Acho que a maioria está com excesso de 50%. Muitas, com 75%. Agora todas têm a desculpa bala de prata: ah, é a IA.”

A Uber também entrou no debate após reduzir aproximadamente 23% de sua área de recursos humanos e recrutamento. A medida afetou menos de 1% dos 34.000 funcionários da companhia. A empresa negou qualquer ligação entre os desligamentos e a inteligência artificial. Ainda assim, os cortes ocorreram pouco depois de o diretor de tecnologia da empresa revelar que todo o orçamento anual destinado a ferramentas de programação baseadas em IA havia sido utilizado em apenas quatro meses.

Valorizações bilionárias contrastam com cortes

Enquanto milhares de trabalhadores deixam seus empregos, companhias ligadas à inteligência artificial atravessam um período de forte crescimento financeiro.

A fabricante de chips Cerebras Systems estreou na Nasdaq com valorização de 68% sobre o preço inicial de suas ações, atingindo um valor de mercado próximo de US$ 67 bilhões. O desempenho transformou seus cofundadores, Andrew Feldman e Sean Lie, em bilionários.

Outro exemplo é a SpaceX, que alcançou uma avaliação de US$ 2,1 trilhões. O crescimento da empresa pode resultar na criação de milhares de novos milionários entre seus funcionários. Anthropic e OpenAI também figuram entre as empresas que caminham para avaliações próximas ou superiores a US$ 1 trilhão.

Os números ajudam a ilustrar o cenário. Em 2026, cerca de 150.000 profissionais foram afetados por demissões no setor de tecnologia. Apenas em maio, aproximadamente 40.000 cortes foram registrados. Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de surgirem cerca de 4.400 novos milionários ligados à SpaceX, enquanto diversas empresas continuaram se valorizando mesmo após anunciarem reduções de pessoal.

A disparidade entre enriquecimento e desligamentos ganhou mais visibilidade após um episódio envolvendo Mark Zuckerberg. Em março, o executivo adquiriu uma mansão de US$ 170 milhões na ilha conhecida como “Billionaire Bunker”, em Miami. Dois meses depois, a Meta anunciou a demissão de 8.000 funcionários, o equivalente a cerca de 10% de sua força de trabalho.

Pressão econômica aumenta preocupação dos trabalhadores

A onda de demissões ocorre em um momento de aumento do custo de vida nos Estados Unidos. Gastos com saúde, habitação e financiamentos imobiliários continuam em alta, ampliando a pressão financeira sobre famílias que já enfrentam um cenário econômico mais complexo.

Nesse contexto, cresce o contraste entre empresas altamente lucrativas e investidores ligados à inteligência artificial, de um lado, e profissionais que enfrentam um mercado de trabalho mais instável, de outro.

O debate também resgata comparações com o movimento Occupy Wall Street, surgido após a crise financeira de 2008. Para críticos, a referência evidencia como a insatisfação social pode aumentar quando ganhos e perdas econômicas são percebidos como distribuídos de forma desigual.

Além disso, companhias como Block, Atlassian e Cloudflare chegaram a registrar alta em suas ações após relacionarem cortes de pessoal ao avanço da inteligência artificial.

Apesar da frequência com que a tecnologia é mencionada nas justificativas corporativas, a relação direta entre IA e demissões segue cercada de questionamentos. À medida que mais empresas recorrem a essa explicação, cresce também o escrutínio sobre os verdadeiros fatores por trás dos desligamentos.

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(Com informações de Olhar Digital)

(Foto: Reprodução/Magnific/mahamadaligodad)

Pedro Carneiro

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Pedro Carneiro
Tags: sindical

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