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Com diferença salarial, mulheres trabalharam ‘de graça’

Com diferença salarial, mulheres trabalharam ‘de graça’ até agora em 2026

Cálculo mostra que brasileiras levam 80 dias a mais para alcançar rendimento anual masculino

Diferença salarial – As mulheres brasileiras trabalharam, na prática, os três primeiros meses de 2026 “de graça” na comparação com os homens. Isso porque, segundo dados recentes, elas recebem em média 22% a menos do que seus pares masculinos no país.

O cálculo, feito com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) do último trimestre de 2025, indica que apenas a partir de 22 de março as mulheres passam a alcançar, proporcionalmente, a mesma renda anual dos homens. Até então, é como se tivessem trabalhado “de graça”.

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“Quando olhamos para estes grupos parecidos, vemos que, se as mulheres ganhassem o mesmo que os homens, elas poderiam começar a trabalhar em 22 de março,” explica Thaís Barcellos, responsável pelo levantamento. “Até então, elas poderiam ter estado ‘de férias’ e, a partir daí, teriam o mesmo rendimento que os homens para o ano.”

Na prática, isso significa que, ao longo de um ano, mulheres precisam trabalhar cerca de 80 dias a mais para atingir o mesmo rendimento anual masculino.

Além da diferença salarial, a desigualdade se reflete também na participação no mercado de trabalho e nas condições de emprego. Mulheres estão mais expostas à informalidade e precariedade, o que aumenta a vulnerabilidade econômica.

“Estes fatores, combinados, traduzem uma grande desigualdade de gênero no mundo do trabalho, com uma condição de maior vulnerabilidade para as mulheres,” afirmou Eutália Barbosa, secretária-executiva do Ministério das Mulheres.

O chamado “Dia da Igualdade Salarial” varia de país para país, conforme o tamanho da desigualdade. No Brasil, ele ficou em 21 de março neste ano. Em outras regiões, a data muda de acordo com a diferença de rendimentos e os critérios adotados nos cálculos.

Apesar de a desigualdade brasileira estar próxima da média global, o país ocupa uma posição desfavorável em rankings internacionais de percepção de equidade salarial. Especialistas apontam que o problema não está na qualificação, mas na remuneração e no acesso a cargos de liderança. “O problema não é de qualificação. O gargalo está na remuneração e ascensão a cargos de liderança,” diz Gallianne Palayret.

Dados também mostram que menos da metade dos cargos de direção nas empresas são ocupados por mulheres. Em alguns setores, como administração pública, educação e saúde, a diferença salarial pode chegar a 35%.

A desigualdade é ainda mais acentuada quando se considera o fator racial. Mulheres negras recebem, em média, os menores salários do mercado, ficando atrás de todos os demais grupos. “A interseccionalidade entre gênero e raça no mercado de trabalho penaliza mais mulheres negras,” destaca Lorena Hakak.

Em comparação com homens brancos, o rendimento médio das mulheres negras não chega à metade. Além disso, elas enfrentam maior informalidade e maior vulnerabilidade financeira, especialmente em domicílios chefiados por mulheres.

Outro fator que contribui para a desigualdade é a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados. Mesmo fora do emprego formal, mulheres seguem dedicando mais horas semanais a essas atividades do que os homens, o que limita sua posição e permanência no mercado de trabalho.

“Enquanto o cuidado for tratado como responsabilidade exclusiva ou primária das mulheres, elas vão continuar a ter menos tempo e condições de competir no mercado de trabalho,” diz Palayret.
Dados recentes mostram que apenas pouco mais da metade das mulheres estava ocupada em 2024, percentual significativamente inferior ao dos homens.

Na tentativa de enfrentar esse cenário, o Brasil conta com a Lei da Igualdade Salarial, em vigor desde 2023, que estabelece remuneração igual para funções equivalentes. A legislação também estabelece medidas como transparência salarial, fiscalização e canais de denúncia.

“Se uma mulher identificar diferença salarial injustificada, ela pode procurar o setor de Recursos Humanos da empresa, buscar orientação no sindicato da sua categoria, registrar denúncia no Ministério Público do Trabalho e Emprego ou recorrer à Justiça do Trabalho,” orienta Barbosa.

Apesar dos avanços, especialistas avaliam que as medidas ainda são insuficientes e defendem ações mais amplas, como ampliação da licença-paternidade, maior oferta de creches e políticas de combate ao assédio e à discriminação no ambiente de trabalho.

(Com informações de DW)
(Foto: Reprodução/Freepik/diloka107)

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