Home office – Com uma bebê chorando no banco de trás do carro estacionado em frente à escola primária da filha mais velha, a empresária Nicole Greene, 39, ri ao discutir como o trabalho remoto poderia ajudar a aumentar as taxas de fecundidade.
A fundadora de uma consultoria de comunicação diz que a decisão de migrar sua agência inteiramente para o trabalho remoto foi um fator determinante não apenas para atrair talentos em um setor predominantemente feminino, mas também para decidir que poderia ter outro filho.
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À medida que mais pessoas optam por ter menos filhos enquanto empregadores pressionam para que os funcionários voltem ao escritório, a decisão de Greene reflete uma tensão mais ampla entre trabalho e família. De acordo com uma pesquisa financiada pelo Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, seu cálculo de que o trabalho remoto torna possível aumentar a família não é incomum.
Com base em dados de 38 países, acadêmicos do King’s College London, da Universidade Stanford e da Universidade Princeton concluíram que o trabalho remoto poderia desempenhar um papel significativo no enfrentamento da queda nas taxas de fecundidade.
“A flexibilidade do trabalho está emergindo como uma das formas mais promissoras e baratas de ajudar as pessoas a terem as famílias que dizem querer”, afirma Cevat Giray Aksoy, professor associado de economia do King’s e economista-chefe de pesquisa do relatório. “Nos países mais ricos, as mulheres ainda dizem que o tamanho ideal de família é um pouco acima de dois filhos, mas a fecundidade real está estagnada em torno de 1,7 ou 1,8.”
Com base em dados coletados entre 2023 e início de 2025, em um total de 11 mil adultos pesquisados, o estudo descobriu que a fecundidade, incluindo nascimentos realizados e planos declarados para mais filhos, era maior para aqueles que trabalham de casa pelo menos um dia por semana.
Para casais em que ambos os parceiros trabalhavam de casa pelo menos uma vez por semana, a fecundidade total era 14% maior em comparação com quando nenhum dos dois trabalhava, equivalente a 0,32 filho por mulher. Os resultados se mantêm quando controlados por fatores como educação, idade ou estado civil.
A ligação entre trabalho remoto e fecundidade, diz Aksoy, passa pela redução do tempo de deslocamento e maior controle sobre o dia. “A exigência tradicional de escritório das 9h às 18h é um problema porque não coincide com o horário escolar”, diz Greene. Trabalhar de casa permitiu que sua família saísse de um pequeno apartamento em Londres para uma casa maior, onde foi possível ter outro filho.
À medida que países enfrentam a queda nas taxas de fecundidade, Aksoy diz que governos e empresas deveriam levar o trabalho remoto a sério. No entanto, muitas empresas estão caminhando na direção oposta, exigindo o retorno ao escritório.
Bancos de Wall Street como o JPMorgan exigiram que os funcionários retornassem cinco dias por semana. A rede varejista Boots exigiu que funcionários do escritório central comparecessem a semana toda; a THG, sediada em Manchester, monitora a presença de segunda a sexta; e empresas como o HSBC alertaram que a baixa frequência poderia afetar as avaliações de desempenho.
Chefes dizem que funcionários presenciais permitem decisões mais rápidas, maior supervisão e uma cultura empresarial mais forte. Um CEO disse ao Financial Times que “não é responsabilidade das empresas resolver a crise de fecundidade de um país”. Embora o projeto de lei de direitos trabalhistas do Reino Unido inclua o direito “desde o primeiro dia” para funcionários solicitarem trabalho flexível, ele tem enfrentado resistência.
Estratégia para reter talentos
No entanto, outras empresas veem a possibilidade de trabalhar de casa como uma forma de atrair e reter talentos. “Trabalho flexível é uma estratégia de talentos, não um benefício de estilo de vida”, diz Rachel Gilley, CEO da empresa de comunicação Clarity Global.
A pesquisa sugere que o trabalho flexível deveria estar disponível para homens e mulheres se quiser aumentar a fecundidade. A análise de dados da Pesquisa Populacional Atual dos EUA descobriu que, quando a taxa de trabalho remoto em uma ocupação aumentou em 7 pontos percentuais, a fecundidade entre mulheres nessa ocupação subiu 8,5%. Quando o mesmo aumento se aplicou às ocupações de ambos os parceiros, a fecundidade aumentou 13,8%.
A flexibilidade também pode tornar possível passar por tratamentos de fertilidade. Quando a rede de supermercados Co-op introduziu licença para tratamentos em 2022, a CEO Shirine Khoury-Haq revelou que havia passado por fertilização in vitro.
Anastasia Shubareva-Epshtein, fundadora e CEO do aplicativo de bem-estar Carea, diz que em sua rede o trabalho remoto é frequentemente creditado por ajudar mulheres a passarem por tratamentos de fecundidade.
Claire McNeil, CEO da Timewise, organização sem fins lucrativos focada em trabalho flexível, diz que trabalhar de casa “reduz o atrito” em torno de cuidados infantis e presença parental. O custo dos cuidados infantis aumentou tanto que uma renda dupla familiar agora é necessária.
Para alguns pais, o descompasso entre o horário comercial das 9h às 18h e os horários de creche significa que o trabalho flexível é essencial. “Sem trabalho flexível e trabalho remoto, eu não estaria trabalhando ou não teria um filho”, diz Chloe Benson, assessora de imprensa na Henley Business School, que tem uma filha de 18 meses.
Políticas contra queda de natalidade
Embora a queda nas taxas de fecundidade tenha provocado ações de muitos governos, poucas intervenções focaram no trabalho remoto. No mês passado, o governo francês escreveu para mulheres e homens de 29 anos lembrando-os de ter filhos.
No ano passado, a Hungria nacionalizou clínicas de fertilização in vitro e introduziu empréstimos para casais casados que são perdoados se tiverem mais filhos. A Itália introduziu um “bônus bebê”, e a Polônia eliminou o imposto de renda para famílias com dois ou mais filhos. Uma construtora sul-coreana, a Booyoung, ofereceu aos funcionários um bônus de US$ 75 mil por cada bebê.
Algumas evidências sugerem que pagamentos em dinheiro antecipam gestações que aconteceriam de qualquer forma. Um artigo do Institute of Economic Affairs descobriu que “incentivos financeiros têm sucesso limitado e não abordam as causas raiz do declínio das taxas de natalidade”.
À primeira vista, a expansão do trabalho remoto após a pandemia teve sucesso limitado em provocar um baby boom. As taxas de fecundidade continuaram a cair; no Reino Unido foi de 1,4 em 2024, novo recorde de baixa pelo terceiro ano consecutivo.
A Tommy’s, instituição de caridade para gravidez e bebês, diz que muitas mulheres adiaram a gravidez devido a temores sobre o efeito da Covid e restrições ao parto. O fechamento de clínicas de fertilidade também afetou as taxas de natalidade.
Aksoy diz que o colapso de natalidade e a revolução do trabalho remoto não deveriam ser discutidos separadamente, acrescentando que a fecundidade poderia ter sido menor sem a expansão do trabalho remoto. O artigo estimou que, em 2024, o trabalho remoto foi responsável por 8,1% da fecundidade nos EUA, ou 291 mil nascimentos a mais por ano.
Para Josie Corbett, profissional de comunicação na FTI, a decisão de aumentar sua família foi possibilitada pela mudança para trabalhar mais de casa desde a pandemia, em parte porque seu marido está nas forças armadas. “A flexibilidade foi a diferença entre eu poder voltar ao trabalho ou não.”
(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Freepik)