Mercado de fraudes on-line cresce com ajuda da inteligência artificial - Foto: Reprodução/Magnific/vershinin89
Golpes digitais – Vítimas de fraudes on-line perderam US$ 442 bilhões em 42 países no ano passado, segundo a Aliança Global Antifraude (GASA). O montante supera algumas estimativas para o comércio global de cocaína e evidencia a dimensão de uma indústria criminosa impulsionada pela inteligência artificial (IA) e pela oferta de ferramentas digitais a preços cada vez menores em mercados clandestinos. Os dados foram apresentados em reportagem da revista Bloomberg.
A dimensão do problema também aparece no número de pessoas atingidas. De acordo com uma pesquisa da GASA, cerca de 57% dos adultos no mundo já foram alvo de fraudadores. Nos Estados Unidos, as perdas relatadas com crimes cibernéticos passaram de US$ 17,8 milhões em 2001 para quase US$ 21 bilhões no ano passado. Agências americanas alertam para a possibilidade de crescimento exponencial desses crimes caso os países não coordenem suas ações de combate.
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O avanço tecnológico transformou o cibercrime em uma cadeia de fornecimento acessível a diferentes grupos. Dados roubados, contas falsas, sites fraudulentos, softwares de inteligência artificial e serviços de lavagem de dinheiro são comercializados on-line. Com esses recursos, organizações menores conseguem estruturar golpes e reorganizar suas atividades após operações policiais, além de mudar de localização quando as autoridades se aproximam.
Pesquisadores identificaram ferramentas de exploração comercializadas por assinatura a US$ 500 mensais, serviços de envio em massa capazes de alcançar 10 mil e-mails por US$ 1 e serviços básicos de phishing por menos de US$ 100.
“Tudo ficou tão barato e tão fácil”, afirma Sean Letz, líder de cibersegurança da Marsh Risk na Ásia. Segundo ele, muitas empresas já reconhecem que não é viável combater cada tática criminosa individualmente.
Letz estima que o mercado de seguros cibernéticos cresceu 150% em cinco anos. Algumas empresas, por sua vez, destinam entre um por cento e dois por cento do faturamento anual à tecnologia da informação (TI) e à cibersegurança.
Um dos maiores casos documentados de infraestrutura criminosa digital envolve a Xinbi Guarantee, plataforma em chinês cujo operador havia registrado uma empresa no Colorado, nos Estados Unidos. A organização processou cerca de US$ 24 bilhões em transações até que autoridades americanas apreenderam seus canais no Telegram e suas carteiras de criptomoedas, em setembro de 2026.
Pouco antes da derrubada da plataforma, a Chainalysis, especializada em dados blockchain, mapeou para a Bloomberg parte da cadeia de fornecedores ligada à Xinbi. Os rastros financeiros conectavam potenciais clientes a vendedores de dados pessoais roubados, softwares deepfake, serviços de registro de contas, desenvolvimento web e lavagem de dinheiro.
Entre as transações identificadas, um comprador pagou US$ 834 a um fornecedor de dados. Outro transferiu US$ 9.150 a um vendedor de software de IA e deepfake, enquanto um terceiro fornecedor de inteligência artificial recebeu US$ 200.
Uma carteira associada ao KK Park, conhecido centro de golpes localizado na fronteira entre Mianmar e Tailândia, enviou US$ 18,4 milhões por meio de um intermediário a um potencial cliente. Posteriormente, esse cliente pagou por serviços de registro de contas e desenvolvimento web.
A estrutura também oferecia ferramentas para facilitar a comunicação e a elaboração de abordagens fraudulentas. Por menos de US$ 20 mensais, um serviço de tradução em tempo real no Telegram disponibilizava bibliotecas de propostas de investimento e roteiros de golpes românticos adaptados a preferências sexuais. O material incluía ainda dados sobre pensões americanas, pontuações de crédito e hábitos alimentares.
A reação dos concorrentes à operação mostrou a capacidade de adaptação dessas redes. No mesmo dia em que a Xinbi foi fechada, um grupo concorrente classificou o episódio como uma “oportunidade valiosa”. A organização, que já havia sobrevivido ao fechamento de outros três mercados semelhantes, informou aos clientes que havia diversificado seus canais de distribuição e passaria a negociar diretamente com eles.
“Embora este incidente tenha causado volatilidade a curto prazo, a longo prazo, ele nos ajuda a aprimorar nossos negócios”, publicou a empresa em chinês.
A dimensão dos riscos também foi destacada por Jeanine Pirro, procuradora americana. “Se o crime organizado chinês consegue comprar um site personalizado e um serviço de lavagem de dinheiro da mesma forma que se pede comida para viagem, então todos os americanos com uma conta de aposentadoria estão na zona de risco”, afirma.
Com o aumento da pressão sobre complexos criminosos em Mianmar e no Camboja, grupos ligados à China passaram a se dispersar para regiões como a África e o Sri Lanka. Operações também foram identificadas em Dubai, na Albânia e na Ucrânia.
Em vez de controlar cidades inteiras, essas organizações passaram a atuar em estruturas menores e temporárias, instaladas em apartamentos, hotéis e veículos. O modelo combina mercados digitais clandestinos com redes criminosas locais, permitindo que as operações sejam retomadas em diferentes lugares.
Os dados da Interpol demonstram a dimensão internacional desse movimento. O número de nacionalidades identificadas entre pessoas encontradas em centros de golpes chegou a 89, mais de cinco vezes o registrado no início de 2023. A lista inclui cidadãos do Canadá, da Itália, da Espanha, da Polônia, de Moçambique, da Argélia, da Argentina, do Equador e do Líbano, entre dezenas de outros países.
Uma operação no Quênia ilustra essa expansão. Em julho de 2026, a polícia queniana apreendeu computadores, celulares e dezenas de passaportes chineses e malaios em um apartamento em Nairóbi. Quase 20 cidadãos chineses foram detidos.
Investigadores ouvidos pela Bloomberg sob anonimato afirmaram que o grupo mantinha um esquema de investimentos fraudulentos direcionado a contas na China, em Hong Kong e na Malásia. A organização também lavava milhões de xelins quenianos por meio de bancos locais.
No Camboja, um complexo abandonado associado ao suposto grupo Prince Group foi aberto a jornalistas pela primeira vez desde que as autoridades o apreenderam, em janeiro de 2026. Localizado perto da fronteira com o Vietnã, o espaço continha documentos que acompanhavam as vítimas desde o contato inicial até o pagamento.
Folhas de pagamento registravam o desempenho dos trabalhadores e comissões de até oito por cento da receita gerada por alguns deles. Um manual de aproximadamente 90 páginas incluía seções sobre “construir confiança”, “elogiar clientes” e “roteiros para conversas sinceras”.
Outro documento apresentava uma orientação direta aos operadores: “Guie o cliente passo a passo para a sua armadilha.”
O intervalo entre a primeira abordagem e o pagamento também diminuiu. Atualmente, quase dois terços das vítimas efetuam pagamentos em até 24 horas após o contato inicial.
No caso do phishing, a velocidade de execução é ainda maior. Uma análise da ZeroFox feita para a Bloomberg aponta que fraudadores com poucas habilidades técnicas utilizam plataformas legítimas de desenvolvimento e construtores de aplicativos baseados em inteligência artificial para criar páginas falsas com poucos comandos.
O número de páginas de phishing detectadas nos planos gratuitos de nove dessas plataformas mais que quadruplicou em dois anos, chegando a 10,6 mil.
“A novidade é que os geradores de código de IA agora permitem que qualquer pessoa, sem nenhuma habilidade em programação, crie um login bancário falso convincente em poucos minutos”, explica a análise da ZeroFox.
Embora o volume ainda seja pequeno em termos absolutos, a trajetória de crescimento é acentuada, segundo o levantamento.
As redes sociais se consolidaram como canais centrais para alcançar vítimas e passaram a enfrentar cobranças mais diretas por suas medidas de prevenção. Desde o ano passado, a Meta removeu mais de 16 milhões de contas do Facebook e do Instagram associadas a centros de golpes e retirou 65 milhões de anúncios fraudulentos. Desse total, 94% foram removidos antes de qualquer denúncia.
Nathaniel Gleicher, chefe de políticas de segurança e combate a fraudes da Meta, afirma que os criminosos conseguem novos dispositivos e retomam as atividades rapidamente.
“Bloqueamos as contas deles; eles criam mais contas. Vamos além e bloqueamos a tecnologia que usam”, diz. “Golpes são ruins para os usuários, são ruins para os anunciantes e são ruins para nossas plataformas.”
A empresa, entretanto, enfrenta acusações de lucrar com atividades fraudulentas. No início de 2026, foi processada na Califórnia sob a alegação de facilitar e lucrar bilhões com anúncios fraudulentos direcionados a famílias e idosos.
Gleicher não comentou diretamente as alegações sobre receitas, mas afirmou que os fraudadores imitam anunciantes legítimos, tornando a identificação “incrivelmente desafiadora”. Entre as medidas apontadas por ele para enfrentar o problema está a ampliação da verificação de anunciantes.
Uma operação recente reuniu Meta, Microsoft, Coinbase e Starlink com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o Federal Bureau of Investigation (FBI), a Polícia Real Tailandesa e agências de outros países.
Durante a ação, a Meta desativou 1,4 milhão de contas, páginas e grupos. A Microsoft suspendeu cerca de 20 mil contas, enquanto a Starlink interrompeu o serviço de milhares de dispositivos. As autoridades tailandesas, por sua vez, realizaram 63 prisões.
Apesar dos resultados, a infraestrutura criminosa continua se regenerando em um ritmo superior à capacidade de coordenação dos governos. Contas, sites e carteiras fraudulentas podem ser substituídos em questão de horas.
Para Allison Pytlak, do Stimson Center, em Washington, a resposta precisa avançar na cooperação internacional e na responsabilização dos envolvidos.
“À medida que as operações se tornam mais sofisticadas, a necessidade de uma responsabilização legal robusta e coordenada torna-se cada vez mais urgente”, diz.
Pytlak defende que os governos alinhem suas prioridades de fiscalização e considerem os trabalhadores encontrados nesses locais como possíveis vítimas de tráfico humano, em vez de classificá-los automaticamente como suspeitos.
O impacto financeiro das fraudes recai cada vez mais sobre empresas que operam legalmente. No HSBC, os prejuízos associados a esse tipo de crime chegam a US$ um bilhão por ano.
Bancos, operadoras de telecomunicações e plataformas de tecnologia são pressionados a reembolsar vítimas e a fiscalizar a infraestrutura utilizada pelos criminosos.
A UK Finance informou que os bancos pagaram £ 354,3 milhões (US$ 481,5 milhões) a vítimas de fraudes por transferência bancária no ano passado. No mesmo período, os criminosos roubaram £ 1,28 bilhão por meio desse tipo de golpe no Reino Unido.
Singapura adotou um modelo de responsabilidade compartilhada entre bancos e empresas de telecomunicações. Já as plataformas de criptomoedas afirmam que é difícil impedir os pagamentos porque, em muitos casos, as próprias vítimas autorizam as transferências.
O avanço das ferramentas de inteligência artificial, a redução dos custos operacionais e a capacidade de reorganização das redes criminosas ampliam os desafios para empresas e autoridades. Mesmo com operações conjuntas e remoções em larga escala, a rapidez com que os fraudadores substituem seus recursos continua sendo um dos principais obstáculos ao combate às fraudes digitais.
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(Com informações de It Forum)
(Foto: Reprodução/Magnific/vershinin89)
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