Segurança de astronautas – Em 1902, Georges Méliès levou o homem à Lua nas telas do cinema. Faltavam 67 anos para Neil Armstrong fazer o mesmo de verdade. Hoje, a ficção científica que retrata a inteligência artificial como parceira — ou antagonista — dos astronautas também começa a ganhar contornos reais. Na missão Artemis II, realizada pela NASA no início deste mês, a IA já fez parte das operações.
Durante o voo, que durou pouco mais de nove dias ao redor da Lua, a tecnologia assumiu tarefas de suporte que seriam inviáveis de realizar manualmente em tempo real. Monitorou sistemas críticos da nave Orion, analisou as sete mil imagens produzidas pela missão, rastreou a saúde da tripulação e ainda ajudou a prever tempestades solares com um dia de antecedência.
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“A inteligência artificial foi usada principalmente para conduzir e analisar os sistemas da Artemis II, para entender se existe alguma anomalia”, explica a astrofísica brasileira Roberta Duarte Pereira, cuja pesquisa utiliza IA na análise de plasma espacial e na identificação de buracos negros. “Ela é capaz, por exemplo, de monitorar com precisão os tanques de oxigênio da nave, que explodiram na Apollo 13, em 1970. Serve também para mapeamento, analisando rapidamente as sete mil imagens que a missão produziu”.
O uso mais concreto da IA na Artemis II foi no acompanhamento da própria tripulação. Por meio do estudo ARCHeR, divulgado pela Nasa, os astronautas tiveram sono, movimento e outros indicadores fisiológicos monitorados continuamente. O objetivo era entender como cada integrante respondia ao isolamento, à carga de trabalho e às condições do ambiente espacial.
A iniciativa não é trivial. Uma missão além da órbita baixa exige autonomia crescente da tripulação, e qualquer fadiga, perda de atenção ou descompasso entre humanos e sistemas pode ter consequências operacionais sérias. A IA funcionou como ferramenta de leitura e organização de sinais que dificilmente seriam acompanhados manualmente, sobretudo em tempo real.
Outro recurso utilizado foi um algoritmo desenvolvido pela Universidade de Michigan, capaz de prever tempestades solares com 24 horas de antecedência. A tecnologia permitiu recalibrar a nave Orion e otimizar a proteção da tripulação contra radiação no espaço profundo, risco invisível, mas constante, em qualquer missão além da atmosfera terrestre.
O que a IA ainda não faz
Apesar dos avanços, há um limite claro. A documentação da Nasa sobre modelagem e simulação é direta: sistemas baseados em machine learning exigem validação rigorosa antes de serem aplicados a questões críticas de segurança. Em voos tripulados, essa cautela se traduz em uma divisão precisa de funções, a IA analisa, sugere e alerta, mas não decide.
Nos 50 minutos em que os astronautas passaram incomunicáveis no “lado escuro” da Lua, a IA apoiou a operação sem substituir o julgamento humano. A experiência mostrou que a tecnologia amplia imensamente a capacidade de perceber, antecipar e reagir, mas o comando dos voos, por ora, permanece com pessoas.
A Artemis II foi a primeira missão tripulada do programa Artemis, concebida para validar os sistemas da nave Orion, do foguete SLS e de toda a infraestrutura necessária para missões mais ambiciosas. A programação oficial da Nasa já foi atualizada: o primeiro pouso lunar tripulado foi reposicionado para 2028, enquanto 2027 deve abrigar uma missão intermediária em órbita baixa para testar acoplagem e integração com veículos comerciais.
Para além da Lua, o horizonte aponta para Marte. E quanto mais longa e distante a missão, mais indispensável tende a ser a IA, seja para otimizar rotas, gerenciar recursos ou interpretar volumes de dados que nenhuma equipe humana conseguiria processar sozinha.
Desde janeiro de 2025, a Nasa já havia tornado público que a tecnologia ocupa funções centrais em suas operações. As aplicações vão da navegação autônoma do rover Perseverance em Marte ao monitoramento ambiental de vulcões, enchentes e incêndios na Terra, passando por sistemas de controle de tráfego aéreo e classificação de solo marciano.
Roberta Duarte Pereira, que viu de perto essa transformação em sua pesquisa, resume o momento com uma certa consciência histórica.
“Quando a gente vive um momento histórico, às vezes não se dá conta e só percebe anos depois”, diz. “Mas, com certeza, vivemos uma era de ouro, uma segunda corrida espacial. Dessa vez, entre EUA e China, que também tem planos de pousar na Lua até 2030”.
(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Magnific/tatheerimran51214)