Opinião: Cem anos depois de Ford, Brasil ainda debate redução da jornada
Redução da jornada – Ainda lembro o que ouvi de um jornalista da velha guarda quando comecei a trabalhar: “mais do que o que você faz, importa o tempo que passa parecendo fazer algo importante”. Arregalei os olhos: era a absoluta antítese do que tinha aprendido nos meus anos de Escola Alemã, onde, à boa maneira germânica, era incutida a lógica da produtividade e eficiência.
Infelizmente, confirmei que era mesmo assim que as coisas funcionavam em muitas empresas — entre cafezinhos, risadas, distrações e conversas de corredor, passava-se ali, só porque sim, demasiado tempo além do que seria necessário.
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Lembrei-me disto a propósito do fim da escala 6×1, um tema quente ao qual o Brasil chega com um século de atraso. Foi precisamente em 1926 que Henry Ford, o visionário que revolucionou a indústria automóvel e os métodos de produção em massa, definiu como regra na sua empresa a semana de cinco dias, estabelecendo um dia de descanso extra para 55 mil empregados.
Em 1914, ele já havia adotado a jornada de oito horas e o salário de US$ 5 por dia, uma enorme inovação à época. Ford via muito à frente: não olhava estas mudanças como custos, mas antes como investimentos. Considerava-as essenciais para motivar a sua preciosa mão de obra e estimular a produção, enquanto reduzia a alta rotatividade do pessoal.
Os jornais da época testemunharam a suspeição com que as medidas foram vistas pelos críticos, que condenaram o negócio de Ford à ruína e anteciparam a desordem nas classes trabalhadoras. Cem anos depois, encontramos o mesmo tom pessimista no Brasil em relação às diferentes propostas políticas de redução da escala 6×1.
Há quem tema uma quebra da competitividade das empresas brasileiras, e até quem, como Marcos Pereira, do Republicanos, sublinhe que “ócio a mais faz mal” e que “o povo fica mais exposto ao álcool, a drogas e a jogos de azar”. Um alegado perigo que, visto deste lado do Atlântico (num país onde foi instituído o limite das oito horas de trabalho diário em 1919 e a escala 5×2 se consolidou desde o fim da década de 1990, quando foram impostas as 40 horas semanais), chega a dar vontade de rir…
Reparem: na Europa, já em 1936 a França definia a regra das 40 horas semanais. Hoje, na União Europeia, a média do tempo de trabalho está nas 37 horas semanais (os Países Baixos lideram com 31,5 horas), e a discussão já galgou mais um degrau. O tema agora é o salto para a semana 4×3, um modelo a ser testado com sucesso. E até o governo português não exclui a possibilidade de o aplicar à função pública, que já trabalha só 35 horas semanais.
Olhando para o caminho percorrido na Europa, é possível retirar algumas lições. A primeira é que estas evoluções têm de ser acompanhadas por uma reorganização dos métodos de trabalho e ganhos de produtividade, e uma nova lei pode servir de fator impulsionador destas melhorias.
Também é certo que há indústrias onde a mudança é mais difícil, como no comércio e serviços, e por isso é recomendável estabelecer um período de transição gradual. Mas algo é claro: recusar este caminho é mais ou menos como tentar parar o vento com as mãos —não resolve, aumenta frustrações e desbarata ganhos. Não há por que temer: está na hora de o Brasil reduzir o tempo de trabalho.
Por Mafalda Anjos – Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, é formada em direito e autora de livros como ‘Carta a um Jovem Decente’
*Texto publicado originalmente na Folha de S.Paulo
(Foto: Reprodução/José Cruz/Agência Brasil)
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