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Opinião: Quando a greve se faz necessária

A paralisação, longe de qualquer precipitação, é resultado de um acúmulo de demandas históricas

Greve – A greve, em sua essência, não é um fim. É um instrumento. Um recurso extremo, previsto em lei, utilizado quando o diálogo se esgota ou quando ele deixa de produzir efeitos concretos. Em setores essenciais, como a saúde pública, a decisão de cruzar os braços carrega ainda mais peso, pois envolve responsabilidades que ultrapassam as relações de trabalho e impactam diretamente a sociedade. Ainda assim, há momentos em que a greve se impõe como necessária.

É o que se observa no atual movimento dos administradores do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), um dos maiores complexos hospitalares do Sul do Brasil, integrante do Sistema Único de Saúde (SUS) administrado pelo Ministério da Saúde. A instituição, que também possui sob sua responsabilidade a gestão do Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, referência no atendimento 100% SUS, cumpre um papel estratégico na estrutura da saúde pública brasileira. Justamente por isso, o cenário enfrentado por seus administradores exige atenção e reflexão.

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A paralisação, longe de qualquer precipitação, é resultado de um acúmulo de demandas históricas, de tentativas reiteradas de negociação e de uma realidade de trabalho que já não se sustenta sem prejuízos evidentes, tanto para os profissionais quanto para a qualidade da gestão hospitalar.

A primeira reivindicação da categoria trata de um princípio básico: a isonomia. Os administradores pleiteiam a equiparação de seus salários ao patamar mínimo das demais profissões de nível superior. Não se trata de discutir projeções futuras ou planos ainda em construção, mas de corrigir uma distorção presente. O modelo proposto de Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS), inclusive, acaba por manter a categoria em condição inferior, o que reforça a necessidade de uma solução imediata e efetiva.

O segundo ponto é ainda mais sensível: as condições de trabalho. A sobrecarga, o acúmulo de funções e a imposição de metas incompatíveis com a jornada regular não apenas comprometem a eficiência da gestão, como também colocam em risco a saúde física e mental dos trabalhadores. Aqui reside uma contradição que não pode ser ignorada: sendo o GHC uma instituição vinculada ao Ministério da Saúde, órgão responsável por promover políticas públicas voltadas à saúde da população e também dos trabalhadores, causa preocupação que normas básicas, como as diretrizes da NR-1, não estejam sendo plenamente observadas no cotidiano desses profissionais.

Ignorar esse cenário é naturalizar o adoecimento e institucionalizar a precarização. A ausência de condições adequadas de trabalho não impacta apenas os administradores, ela reverbera diretamente na qualidade da gestão hospitalar e, consequentemente, no atendimento prestado à população.

Além disso, a insuficiência de profissionais evidencia um problema estrutural que exige solução imediata. A contratação de novos administradores não é um luxo, mas uma necessidade para garantir o funcionamento adequado de um sistema que já opera sob pressão constante. Enquanto isso não ocorre, medidas transitórias, como a regulamentação do teletrabalho, a remuneração adequada de horas extras e a revisão de jornadas, são alternativas viáveis para mitigar os impactos dessa defasagem.

O terceiro eixo das reivindicações expõe um aspecto muitas vezes invisibilizado: a estrutura física e os recursos de trabalho. Ambientes inadequados, falta de equipamentos e condições ergonômicas precárias não são meros detalhes operacionais, são fatores que comprometem diretamente a produtividade, a segurança e a dignidade no exercício profissional. A realização de novos estudos ambientais e a atualização dos programas de gestão de riscos são medidas indispensáveis para assegurar o mínimo necessário.

Diante desse conjunto de fatores, a greve deixa de ser apenas um direito para se tornar uma necessidade legítima. Ela cumpre, neste contexto, o papel de dar visibilidade a um problema estrutural e de pressionar por soluções que, até então, têm sido postergadas.

É fundamental compreender que a valorização dos administradores não é uma pauta corporativista. Trata-se de reconhecer o papel estratégico desses profissionais na organização e no funcionamento de instituições complexas como o GHC. Uma gestão fragilizada impacta diretamente a qualidade dos serviços prestados à população.

A sociedade precisa estar atenta a esse debate. Não se trata apenas de uma reivindicação trabalhista, mas de uma discussão sobre qualidade de gestão, sustentabilidade institucional e respeito às normas que regem o trabalho digno.

A greve, quando necessária, não deve ser vista como ruptura, mas como um chamado. Um chamado ao diálogo efetivo, à responsabilidade institucional e à construção de soluções que sejam justas e duradouras.

Greve é o momento de transformar a tensão em solução. Valorizar quem organiza a saúde pública é, antes de tudo, defender a qualidade do atendimento que chega a todos nós.

 

Por Jorge Avancini – Presidente do Sindicato dos Administradores no RS, Palestrante, Consultor e Especialista em Gestão e Negócios

*Texto publicado originalmente no Sler

(Foto: Reprodução/Freepik/Drazen Zigic)

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