Plantação na Lua – Pesquisadores da Universidade do Texas e do Departamento de Ciências do Solo e Culturas da Universidade Texas A&M divulgaram, no início deste mês, um estudo que demonstra o cultivo de grão-de-bico em um solo que reproduz as características do terreno lunar. A pesquisa tem como objetivo investigar a viabilidade de desenvolver agricultura fora da Terra. A principal autora do trabalho é Sara Oliveira Santos.
Sara atua como pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Geofísica da Universidade do Texas e destaca que a manutenção de uma presença humana permanente na Lua – e possivelmente também em Marte – depende da criação de sistemas capazes de produzir alimentos localmente.
Segundo ela, levar grandes quantidades de comida da Terra em missões espaciais não é uma estratégia viável a longo prazo. O transporte envolve custos elevados e limitações severas de peso nas naves. Além disso, bases lunares não poderiam depender apenas do envio periódico de mantimentos, o que torna a produção local de alimentos um elemento essencial para missões prolongadas.
Experimento com solo que imita a Lua
Durante o experimento, os pesquisadores combinaram diferentes tipos de substratos, incluindo materiais que simulam o solo lunar. Nesse ambiente, a planta de grão-de-bico conseguiu sobreviver e atingir a fase reprodutiva em uma mistura que continha até 75% de material semelhante ao terreno da Lua.
Os cientistas também testaram o cultivo em uma composição formada totalmente por solo lunar simulado, onde a planta ainda apresentou resistência significativa.
Para aumentar as chances de desenvolvimento da cultura, as sementes receberam uma modificação biológica: foram tratadas com fungos benéficos antes do plantio. O cultivo ocorreu em um ambiente controlado dentro da Universidade Texas A&M.
Estudo busca entender como plantas da Terra reagiriam na Lua
A última vez que seres humanos caminharam na Lua foi em dezembro de 1972, durante a missão Apollo 17 da NASA. Desde então, o retorno ao satélite natural voltou a ganhar força recentemente com o programa Artemis, também conduzido pela agência espacial norte-americana, que pretende estabelecer bases permanentes no local.
Dentro desse cenário, as amostras usadas no experimento foram obtidas a partir da última missão tripulada à Lua. O objetivo foi reproduzir condições semelhantes às do local onde a missão Artemis IV — prevista para 2028 — deverá pousar.
Em entrevista à ABC News, a pesquisadora e candidata a doutorado Jessica Atkin, bolsista da NASA, explicou que o maior obstáculo para o cultivo de plantas fora da Terra é a própria composição do solo lunar, que não oferece as condições necessárias para o crescimento vegetal. “Para ter solo [arável], você precisa de duas coisas: matéria orgânica e microrganismos, e a Lua não tem nenhuma dessas duas coisas“.
Fungos ajudam plantas a sobreviver
Para superar essa limitação, os cientistas recorreram a um mecanismo antigo da evolução das plantas. Inspirados nas relações simbióticas presentes em grande parte da vegetação terrestre, os pesquisadores recobriram as sementes de grão-de-bico com fungos micorrízicos arbusculares, capazes de ajudar no desenvolvimento das raízes.
Segundo Atkin, “essa é uma das simbioses mais antigas da Terra. É essencialmente o que permitiu que as plantas habitassem a terra e desenvolvessem raízes“.
Mesmo nas condições mais extremas do experimento – com solo totalmente lunar –, a interação com os fungos trouxe benefícios para a planta. O microrganismo conseguiu colonizar as raízes da semente e tornou o substrato mais semelhante ao solo da Terra, prolongando a sobrevivência das plantas por cerca de duas semanas em comparação com sementes que não receberam o tratamento.
Um alimento promissor para missões espaciais
O desenvolvimento de técnicas para cultivar alimentos na Lua é considerado fundamental para uma eventual presença humana permanente no satélite natural. Nesse contexto, o grão-de-bico foi escolhido estrategicamente por seu valor nutricional.
“O grão-de-bico é rico em proteínas e outros nutrientes essenciais, o que o torna um forte candidato para a produção de culturas espaciais”, acrescentou Atkin.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ainda não consumiram os alimentos produzidos no experimento, pois ainda não há confirmação sobre sua segurança alimentar. Segundo Jessica, essa etapa deverá ser esclarecida em breve. “Antes que alguém faça húmus lunar, precisamos confirmar se ele é seguro e nutritivo. Os resultados serão publicados em um artigo complementar ainda este ano”.
Avanço rumo à agricultura fora da Terra
Embora o estudo ainda esteja em estágio inicial, os cientistas consideram que os resultados representam um passo importante para a futura colonização da Lua.
“Este é um pequeno primeiro passo rumo ao cultivo de alimentos na Lua, mas mostramos que isso é viável e estamos caminhando na direção certa“, finalizou Sara Oliveira.
(Com informações de Olhar Digital)
(Foto: Reprodução/Freepik/ahmadzada)