Quebradeiras de coco começam a ganhar novos caminhos com a chegada da tecnologia, ampliando a renda e preservando a tradição - Foto: Reprodução/Amuquec
Tecnologia – Extrair o coco babaçu, quebrar a casca, retirar a amêndoa e transformar diferentes partes da palmeira em produtos como azeite, sabão e artesanato faz parte da rotina de mais de 300 mil mulheres trabalhadoras rurais do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará. Conhecidas como quebradeiras de coco, elas mantêm uma atividade que atravessa gerações e que, desde junho, também é reconhecida como manifestação da cultura nacional pela lei nº 15.431/2026.
No Maranhão, essa tradição começa a ganhar novos caminhos com a chegada da tecnologia. A formação em letramento digital e marketing passou a oferecer às quebradeiras ferramentas para ampliar a comercialização dos produtos derivados do babaçu e alcançar consumidores pela internet.
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A história de Railane Rimá reúne as duas realidades. Criada no interior do Maranhão, ela cresceu acompanhando a mãe e as avós na quebra do coco, atividade responsável por garantir a criação dela e dos dois irmãos. Aos 30 anos, porém, Railane teve contato com um universo que até então estava distante de sua realidade: a tecnologia aliada ao empreendedorismo.
Ela concluiu o curso de letramento digital e marketing promovido pela Eneva e SoulCode. A capacitação integra o Elas Empreendedoras, programa criado em 2020 pela companhia de energia em regiões próximas às suas usinas de gás natural para ampliar oportunidades de trabalho e independência financeira para mulheres.
Segundo Elizabeth Teles, gerente de Responsabilidade Social da Eneva, o treinamento digital é apenas uma das etapas de uma iniciativa mais ampla de incentivo ao empreendedorismo feminino. Em Capinzal do Norte, município maranhense com cerca de 11 mil habitantes, o projeto foi direcionado às quebradeiras de coco babaçu.
Quando a empresa chegou à Associação das Mulheres Quebradeiras de Coco de Capinzal do Norte (Amuquec), aproximadamente 90% das mulheres da comunidade não sabiam ler ou escrever. Em parceria com a prefeitura, elas foram encaminhadas para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Depois, passaram pelas etapas de letramento digital, com o objetivo de utilizar a internet para comercializar diretamente os produtos produzidos a partir do babaçu.
A estruturação da produção e a aproximação com compradores também permitiram que as mulheres agregassem mais valor ao que produzem, reduzindo a dependência de intermediários. Para Elizabeth Teles, a tecnologia passou a representar uma nova possibilidade de acesso à informação e aos direitos.
“A inteligência artificial entra nessa comunidade como mais um mecanismo de acessibilidade à informação, ao conhecimento e aos direitos”, avalia a gerente.
Para a CEO da SoulCode, Carmela Borst, o projeto nasceu também da constatação de que a exclusão digital ainda é mais acentuada entre mulheres que vivem fora dos grandes centros urbanos. O cenário é acompanhado por dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Uma pesquisa divulgada em abril apontou que menos da metade dos brasileiros, 44,5%, possui habilidades médias-altas ou altas em tarefas digitais complexas, como utilizar inteligência artificial, trabalhar com planilhas e configurar computadores e aplicativos.
“O propósito é incluir digitalmente, mas focando na geração de renda. O objetivo não é criar apenas produtoras de conteúdo, mas capacitar pessoas para usarem a tecnologia como ferramenta de transformação financeira e de vida.”
Segundo Carmela, os efeitos da inclusão digital também alcançam a autoestima e a autonomia das mulheres. “Ao democratizar o acesso digital, tiramos essa mulher do isolamento. Ela passa a entender as possibilidades reais para a própria vida”, declara.
O acesso à tecnologia também pode facilitar a busca por informações e serviços de proteção para mulheres em situação de violência. Em alguns casos, a exclusão digital não está relacionada apenas à ausência de um celular, mas também à falta de internet ou de conhecimentos básicos para utilizar ferramentas que fazem parte da rotina, como o Pix.
No início do mês passado, Marie Claire acompanhou a formatura de 30 mulheres em Capinzal do Norte. A cerimônia aconteceu no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), onde a movimentação chamou a atenção dos moradores.
Antes da solenidade, as quebradeiras aguardavam do lado de fora, conversando e demonstrando ansiedade pelo início da programação. Entre elas estava Cícera de Paiva Melo, de 58 anos, que nasceu em Capinzal do Norte e cresceu no campo.
Após a morte da mãe, Cícera passou a ajudar na criação dos irmãos enquanto o pai continuava trabalhando na roça. Para contribuir com o sustento da família, começou também a quebrar coco.
Em 2008, entrou para a associação de quebradeiras de coco, onde permanece até hoje. A participação no grupo trouxe transformações que ultrapassaram a questão financeira. Cícera conta que antes tinha medo de sair de casa e viajar. Com o tempo, passou a participar de feiras e atividades em outros municípios e chegou a viajar para São Luís, Rio de Janeiro e Fortaleza para comercializar os produtos das quebradeiras.
O contato com computadores, entretanto, era algo novo. Até então, Cícera nunca havia tido muita proximidade com a tecnologia.
“Foi um sonho para mim, porque a gente nunca tinha pegado num computador”, celebra.
Durante a formação, ela aprendeu desde os primeiros passos para utilizar um computador até ferramentas que passaram a ser incorporadas à comercialização dos produtos da associação.
Antes, as vendas aconteciam principalmente nas feiras ao ar livre, onde eram comercializados óleo, azeite, sabonete e biscoitos derivados do coco. Agora, além das vendas presenciais, as quebradeiras recebem pedidos pela internet e utilizam plataformas como Mercado Livre, WhatsApp e Instagram.
“Agora melhorou bastante, porque chegam os pedidos e a gente leva ao correio, fica mais fácil para nós”, diz.
A relação de Cícera com a tecnologia também mudou. Ela lembra com entusiasmo da primeira experiência com um computador durante o curso.
“Gostei de tudo, de aprender a mexer, porque eu nunca tinha pegado num computador daquele jeito.”
O aprendizado sobre inteligência artificial e outras ferramentas digitais também representou, para ela, uma oportunidade de recuperar o que considera um “tempo perdido”.
“Veio na hora certa, porque nos dá mais um salto na vida. A gente passou muito tempo parado, quase ficando para trás, e precisava avançar e andar mais rápido, porque o tempo está passando.”
A formação reuniu mulheres de diferentes idades. Entre elas estava Milena Souza Silva, de 21 anos, que também nunca havia feito um curso de letramento ou marketing digital e sequer tinha utilizado um computador antes da capacitação.
Entre os conteúdos que mais chamaram sua atenção estavam as ferramentas de inteligência artificial. Durante as aulas, Milena aprendeu a criar perfis de lojas, slogans e páginas para redes sociais.
“Já tinha um pouco de conhecimento, mas não tão amplo quanto tenho agora. Os professores me ensinaram bastante, e gostei muito dessa parte de inteligência artificial”, conta.
O curso aconteceu justamente quando Milena já buscava maneiras de ampliar seu próprio negócio. Em 2024, ela criou a loja de roupas MA Outlet. Sem um estabelecimento físico, realizava as vendas de casa em casa e desenvolveu seu próprio sistema de crediário.
Com a formação, passou a estruturar também a presença digital e a identidade da marca. “Já tenho tudo pronto e, quando eu lançar, vai ser com a foto e o perfil que desenvolvi através do curso”, afirma.
O próximo objetivo é transformar o empreendimento informal em uma loja física.
“Esse é o meu sonho: ter uma loja para empreender cada vez mais e seguir em frente.”
Para Railane, a aproximação entre tradição e tecnologia está entre os principais resultados da formação. Na avaliação dela, o conhecimento adquirido pode permitir que as quebradeiras levem os produtos para além dos limites de Capinzal do Norte e, ao mesmo tempo, apresentem a outras pessoas a cultura associada ao babaçu.
“Hoje é meio difícil ter o produto conhecido só aqui na cidade. O que o projeto trouxe foi uma forma de elas saberem que podem expandir, vender o que produzem para fora”, afirma. “Isso é muito importante, é uma grande valorização da cultura maranhense, da cultura nordestina.”
A experiência também modificou os planos da própria Railane, que passou a enxergar novas possibilidades profissionais por meio da tecnologia.
“Aprendi que posso criar uma empresa do zero para trabalhar com a internet. A IA me dá esse espaço para conseguir seguir em frente e construir uma empresa”, diz.
Seu projeto é abrir uma empresa em seu nome e explorar possibilidades na área de programação. Para alcançar esse objetivo, tem utilizado a inteligência artificial como ferramenta de aprendizado.
“Pela IA consigo acessar conhecimento que outras pessoas não passam facilmente para a gente”, afirma. “A gente começa a pensar no que pode melhorar na própria vida com esse aprendizado.”
A participação de mulheres mais jovens também é considerada importante para a continuidade desse processo. Filhas e netas das quebradeiras passaram a integrar as formações e, em algumas situações, auxiliam na administração da loja no Mercado Livre e na comunicação pelas redes sociais.
Para Elizabeth Teles, a chegada da tecnologia não significa abandonar os conhecimentos tradicionais transmitidos pelas gerações anteriores. Ao contrário, pode ajudar a ampliar o alcance dessa cultura.
“A inclusão digital não apaga a cultura tradicional. Pelo contrário, ela pode ser uma ferramenta para fortalecer e perpetuar essa cultura”, conclui.
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(Com informações de Marie Claire)
(Foto: Reprodução/Amuquec)
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