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‘AI-washing’: empresas usam IA para justificar demissões em massa

‘AI-washing’: empresas usam IA para justificar demissões em massa

Relatório aponta que desligamentos atribuídos à automação escondem problemas financeiros e erros de planejamento, enquanto reforçam imagem de inovação

IA – Nos últimos anos, tornou-se comum que grandes empresas anunciem demissões em massa associando os cortes à adoção de inteligência artificial. Um novo relatório da consultoria de mercado Forrester, no entanto, sugere que essa narrativa pode estar sendo usada como uma cortina de fumaça corporativa para encobrir decisões financeiras e falhas de gestão.

Segundo o New York Times, a prática recebeu o nome de AI-washing e consiste em atribuir reduções de pessoal à automação, quando as motivações reais envolvem contenção de custos ou correções administrativas. De acordo com o estudo da Forrester, muitas das companhias que anunciam demissões ligadas à IA sequer possuem aplicações tecnológicas “prontas para preencher essas funções”.

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Para a consultoria, a estratégia transforma uma notícia negativa (a demissão de funcionários) em um suposto sinal positivo para o mercado, ao associar os cortes a ganhos de eficiência e inovação. A mensagem transmitida é a de modernização, mesmo quando a tecnologia ainda não tem capacidade para substituir plenamente o trabalho humano.

Em entrevista ao jornal, a pesquisadora sênior da Brookings Institution, Molly Kinder, afirma que esse tipo de “demissão antecipada” permite que executivos se apresentem como visionários diante dos acionistas, sem precisar admitir erros de planejamento.

“É uma mensagem muito amigável para o investidor”, afirmou Kinder ao jornal. Ao responsabilizar a IA, a empresa sugere que está “na vanguarda” e que encontrou formas de economizar. Segundo ela, essa abordagem é considerada “menos arriscada” do que reconhecer que o negócio ou a gestão enfrenta dificuldades.

IA como justificativa para lay-offs

Dados da empresa de pesquisa Challenger, Gray & Christmas, citados pelo NYT, mostram que a inteligência artificial foi mencionada explicitamente em anúncios de mais de 50 mil demissões apenas em 2025.

Entre os exemplos está a Amazon, que anunciou no ano passado novos cortes de milhares de vagas corporativas, associando as mudanças à implementação de “agentes de IA generativa”. Em outubro, a empresa revelou que reduziria cerca de 14 mil funcionários, número que aumentou em mais 16 mil postos de trabalho até o fim de janeiro.

O New York Times relembra que o CEO da companhia, Andy Jassy, teria posteriormente recuado na associação direta entre as demissões e a tecnologia. Analistas ouvidos pelo jornal avaliam que a movimentação tem como objetivo principal liberar caixa para investimentos bilionários em data centers. Outras empresas, como Pinterest e HP, também justificaram cortes recentes com a “realocação de recursos” para áreas de IA.

No setor de redes sociais, a Meta anunciou, em janeiro, uma realocação de recursos voltada a dispositivos de inteligência artificial. A decisão afetou especialmente os estúdios do metaverso, ligados ao Reality Labs, divisão que acumula perdas de cerca de US$ 80 bilhões (R$ 415 bilhões) desde 2020.

Demissões podem ser revertidas

A Forrester estima que mais da metade das demissões atribuídas à IA será “silenciosamente revertida” até 2026. A avaliação é que muitas empresas enfrentarão queda de produtividade ao substituir trabalhadores por tecnologias que ainda não operam de forma totalmente autônoma.

A projeção da consultoria indica que a inteligência artificial deve impactar cerca de 6% dos empregos nos Estados Unidos até 2030. Ainda assim, o papel predominante da tecnologia nos próximos cinco anos deve ser o de ampliar a capacidade dos trabalhadores humanos, e não os substituir completamente.

(Com informações de Tecnoblog)
(Foto: Reprodução/Freepik)

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