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Debate sobre jornada ignora carga real das mulheres, que vivem ‘escala 7×0’

Mulheres dedicam quase 10 horas semanais a mais que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado, segundo o IBGE
domestic work

Carga real das mulheres – Enquanto parte dos trabalhadores brasileiros aproveita o descanso, milhões de mulheres seguem em atividade contínua dentro de casa. O chamado trabalho de cuidado, que envolve tarefas domésticas e atenção a crianças, idosos e familiares, evidencia uma desigualdade estrutural e reforça um debate sobre direitos trabalhistas e divisão de responsabilidades.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres dedicam, em média, quase dez horas a mais por semana a essas atividades em comparação aos homens. Esse tempo, não remunerado, sustenta o funcionamento das famílias e, indiretamente, da própria economia.

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Para a professora de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora, Cibele Henriques, o cenário revela uma lógica histórica que naturaliza a sobrecarga feminina. Segundo ela, o cuidado é frequentemente associado ao afeto e à obrigação moral, o que contribui para invisibilizar seu caráter de trabalho. Na prática, isso resulta em uma jornada contínua, sem pausas, que tem sido descrita como uma “escala 7×0”.

Essa realidade afeta tanto mulheres que atuam exclusivamente no ambiente doméstico quanto aquelas que acumulam emprego formal e responsabilidades familiares. Mesmo em dias de folga, o tempo livre tende a ser absorvido por tarefas pendentes, reduzindo as possibilidades de descanso e autocuidado.

Economia, tempo e desigualdade

A discussão sobre o trabalho de cuidado também ganha força no campo econômico. Ao dedicar grande parte do tempo a atividades não remuneradas, mulheres deixam de acessar oportunidades de renda, qualificação e crescimento profissional. Na avaliação da pesquisadora, trata-se de uma transferência indireta de riqueza, já que esse trabalho sustenta outras atividades produtivas sem gerar retorno financeiro para quem o executa.

Além disso, a distribuição desigual dessas tarefas atinge de forma ainda mais intensa mulheres racializadas e de baixa renda, que têm menor possibilidade de delegar essas funções. O resultado é um ciclo de desigualdade que se reproduz entre gerações.

“As mulheres vivem uma escala 7×0. Especialmente as negras e periféricas. Porque as mulheres de classe média alta têm formas de transferir esse trabalho. Mas para as mulheres negras periféricas, ele é posto como obrigação”, conclui a pesquisadora.

Construção social e impactos no cotidiano

A atribuição do cuidado às mulheres começa ainda na infância, por meio de padrões culturais que diferenciam papéis de gênero. Essa divisão se consolida ao longo da vida e se reflete em situações cotidianas, como a responsabilização quase exclusiva das mães após separações familiares.

Mesmo dentro de relações estáveis, muitas mulheres seguem como principais responsáveis pelo cuidado, o que evidencia uma desigualdade persistente na divisão do trabalho doméstico.

Relação com o debate sobre jornada de trabalho

O tema se conecta diretamente às discussões atuais sobre a redução da jornada formal e o fim da escala 6×1. Embora essas propostas avancem no debate público, especialistas apontam que, para as mulheres, a carga de trabalho total já ultrapassa os limites estabelecidos pela legislação, devido à soma do trabalho remunerado com o não remunerado.

Nesse contexto, a ampliação do debate sobre direitos trabalhistas passa também pelo reconhecimento do trabalho de cuidado como parte essencial da economia e da vida social.

Desafios futuros

Com o envelhecimento da população brasileira e a permanência de altas demandas de cuidado de crianças e idosos, a tendência é de aumento dessa sobrecarga. Para Cibele Henriques, políticas públicas estruturadas podem redistribuir essas responsabilidades, criando redes de apoio que reduzam o peso sobre as famílias, especialmente sobre as mulheres.

Sem esse suporte, o cenário pode se tornar ainda mais desafiador, com impactos não apenas na vida das trabalhadoras, mas também no desenvolvimento social e econômico do país.

(Com informações de Agência Brasil)
(Foto: Reprodução/Magnific)

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