Cérebro – Os seres humanos desenvolvem ferramentas para facilitar a resolução de problemas há milhares de anos. Com o avanço tecnológico, porém, esse processo se acelerou. Em menos de um século, a sociedade passou da calculadora eletrônica portátil à inteligência artificial generativa, incorporando essas tecnologias cada vez mais ao cotidiano.
A dependência dessas ferramentas levanta uma questão: até que ponto ainda somos capazes de realizar determinadas tarefas sem recorrer a elas? Calcular a raiz quadrada de 2.209 ou criar uma história infantil, por exemplo, pode ser substituído por uma pergunta feita à inteligência artificial. Esse comportamento está relacionado ao que estudos científicos das últimas décadas descrevem como delegação cognitiva, memória externa ou mente estendida — quando parte dos recursos mentais é transferida para sistemas externos.
A preocupação com os efeitos desse processo sobre o cérebro tem crescido entre cientistas, especialistas da área clínica e educadores. Um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) procurou investigar justamente como o uso da inteligência artificial interfere na atividade cerebral durante a produção de textos.
Durante três sessões, os pesquisadores acompanharam a atividade cerebral de 54 jovens e avaliaram a qualidade dos textos produzidos. Os participantes foram divididos em três grupos: um utilizou o ChatGPT, outro recorreu ao Google e o terceiro realizou as tarefas utilizando apenas os próprios recursos cognitivos.
Os resultados indicaram que os participantes que utilizaram o ChatGPT apresentaram desempenho inferior aos demais em aspectos neuronais, linguísticos e na qualidade dos textos. Eles também demonstraram uma memória pior em relação ao conteúdo produzido e relataram uma conexão menor com as próprias ideias.
A partir desses resultados, os pesquisadores do MIT argumentaram que a utilização repetida do ChatGPT poderia substituir parte do esforço necessário para o pensamento independente. Esse processo poderia contribuir para o acúmulo do que os autores denominaram “déficit cognitivo” ou “dívida cognitiva”, com possíveis consequências para o cérebro no longo prazo.
Limitações e repercussão dos resultados
Apesar das limitações apontadas por algumas vozes, os resultados foram interpretados por diferentes meios de comunicação como uma possível evidência de que o uso da inteligência artificial necessariamente provocaria uma dívida cognitiva. Nesse contexto, o conceito passou a ser associado à possibilidade de uma redução progressiva das capacidades mentais que não seria perceptível imediatamente.
Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo amplo em estudos empíricos. As pesquisas disponíveis sobre o tema ainda são escassas, e grande parte da produção científica permanece concentrada em discussões teóricas ou normativas, incluindo recomendações para reduzir possíveis efeitos do uso contínuo da inteligência artificial.
Por isso, as conclusões sobre os impactos cerebrais da IA ainda são consideradas limitadas e preliminares.
Por que usamos a inteligência artificial?
Outra maneira de analisar a relação entre IA e cognição é observar por que as pessoas recorrem a sistemas externos. Há cerca de uma década, os pesquisadores Evan Risko e Sam Gilbert desenvolveram um modelo cognitivo para explicar as razões pelas quais os seres humanos utilizam ferramentas externas em vez de depender exclusivamente do próprio cérebro.
Segundo essa perspectiva, as consequências cognitivas estão relacionadas aos objetivos que orientam o uso dessas ferramentas. Uma pessoa pode recorrer à tecnologia simplesmente para evitar determinado esforço mental ou porque acredita que o recurso poderá melhorar seu desempenho.
Um estudante, por exemplo, pode pedir ao ChatGPT que escreva uma redação por acreditar que não consegue realizar a tarefa sozinho. Mas também pode utilizar a ferramenta para comparar ideias, encontrar diferentes perspectivas e aperfeiçoar um texto que já começou a produzir.
Essa diferença é importante para avaliar os possíveis efeitos da delegação cognitiva. Para entender suas consequências, seria necessário considerar primeiro a finalidade desse uso — algo que, segundo o texto, não foi investigado pelo estudo do MIT.
O que fazemos com o esforço economizado?
Além de compreender por que uma pessoa utiliza o ChatGPT, também é necessário observar o que acontece com o tempo e a energia mental poupados. Se uma ferramenta permite concluir mais rapidamente um resumo, uma redação, um esboço ou uma ideia, é preciso questionar como os recursos economizados serão utilizados.
Eles podem simplesmente ser deixados de lado ou empregados em novas atividades e aprendizados.
Pesquisas sobre o uso do Google apontam que a ferramenta pode contribuir para o desenvolvimento de determinadas habilidades quando utilizada para ampliar outros processos de aprendizagem, como identificar onde encontrar informações relevantes. A mesma lógica pode ser aplicada à inteligência artificial.
Em vez de simplesmente solicitar uma resposta pronta, a IA pode ser utilizada de maneira deliberada para estimular o treinamento cognitivo ou estabelecer um diálogo sobre conceitos. Nesse contexto, a ferramenta pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de aprendizagem.
O próprio estudo do MIT apresentou resultados que apontam nessa direção. Em uma quarta sessão, os participantes que anteriormente haviam utilizado o ChatGPT foram impedidos de continuar usando a ferramenta. Ao mesmo tempo, aqueles que haviam utilizado o Google ou apenas o próprio cérebro passaram a ter acesso à IA.
Os participantes que já utilizavam o ChatGPT continuaram apresentando menor atividade cerebral e desempenho inferior. Já os outros grupos demonstraram melhora nos dois aspectos.
Os resultados sugerem que a inteligência artificial pode produzir efeitos diferentes dependendo da maneira como é utilizada. Quando as pessoas combinam suas próprias ideias com sugestões apresentadas pelo ChatGPT, por exemplo, a ferramenta pode potencializar processos mentais relacionados à atenção e à memória.
Essa questão ganha importância especialmente no ambiente educacional. A definição de quais atividades podem ser automatizadas pela IA e quais devem continuar exigindo tempo e esforço cognitivo pode determinar como os recursos economizados serão aproveitados.
Nem tudo é dívida cognitiva
A possibilidade de uma “dívida cognitiva” provocada pelo uso contínuo da inteligência artificial existe, mas ainda não pode ser considerada uma conclusão definitiva. O estudo do MIT apresenta resultados relevantes e abre espaço para novas investigações, mas ainda não permite determinar como a IA afetará as capacidades mentais humanas no longo prazo.
A repercussão do estudo também provocou conclusões consideradas catastróficas sobre o tema, embora a pesquisa não tenha estabelecido quais formas de utilização da inteligência artificial seriam prejudiciais ou quais poderiam ser benéficas.
Por isso, analisar como e para que a IA é utilizada pode ser mais importante do que simplesmente determinar se seu uso é bom ou ruim. A forma de interação com essas ferramentas e o destino dado ao tempo e ao esforço economizados são fatores fundamentais para compreender seus possíveis efeitos sobre a cognição.
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(Com informações de G1)
(Foto: Reprodução/Magnific/black13kira)