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IA remodela o trabalho no Brasil, com maior impacto para jovens e mulheres

IA remodela o trabalho no Brasil, com maior impacto para jovens e mulheres

Pesquisa aponta que 30 milhões de trabalhadores brasileiros estão em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial

IA – Em algum lugar do mundo, neste exato momento, alguém não tão genial assim está desenvolvendo uma ideia que a inteligência artificial classifica como “ótima”, a partir de um raciocínio “perfeito” e com perguntas “precisas”. A predisposição a agradar é parte constitutiva de como esses sistemas foram treinados e esse detalhe diz muito sobre os desafios que a tecnologia impõe ao mercado de trabalho.

Anderson Soares, criador do primeiro curso de graduação em Inteligência Artificial do Brasil, na Universidade Federal de Goiás (UFG), usa essa tendência à “bajulação” para defender o senso crítico como uma das habilidades fundamentais no trabalho com IA. Isso inclui a capacidade de avaliar, questionar e corrigir o que a tecnologia produz.

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“Diferentemente de outras ondas de transformação, a IA afeta a atividade intelectual. Mas ela foi projetada para induzir a retenção do usuário e tem um viés de confirmação. Saber lidar com isso é uma questão que se projeta daqui para frente”, afirma o pesquisador, que é vice-presidente do grupo AI Brasil.

O alerta de Soares ecoa um diagnóstico mais amplo sobre o impacto da inteligência artificial no mundo do trabalho, diagnóstico que, no Brasil, adquire contornos particulares. Em relatórios sobre competências do futuro, como os do Fórum Econômico Mundial, “pensamento analítico” e “alfabetização tecnológica” figuram entre as prioridades para trabalhadores na era da IA. Mas a cientista da computação Nina da Hora pondera que esses documentos partem de uma premissa que não reflete a realidade brasileira.

“Eles falam para uma população em que a alfabetização básica é dada. No Brasil, de três em cada dez adultos são analfabetos funcionais, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional. A conversa sobre habilidades cognitivas avançadas se constrói sobre uma base que não existe para boa parte da força de trabalho aqui”, diz ela.

30 milhões de empregos expostos

Assim como a chegada dos computadores de mesa nos escritórios, nos anos 1980, e a expansão da internet e das plataformas digitais após 2000, a inteligência artificial promete reorganizar a forma como as pessoas trabalham. Pesquisadores do FGV IBRE descrevem esse processo como uma “reconfiguração do conteúdo do trabalho”, mas a mudança não atinge a todos da mesma forma.

Um estudo recente da instituição indica que 30 milhões de trabalhadores no Brasil estão em ocupações com algum grau de impacto da IA, ou seja, com tarefas passíveis de automação. Desse total, 5 milhões estão no nível mais elevado de incidência. Os setores mais expostos são os de serviços financeiros (90,4%) e de informação e comunicação (80,8%). Os menos afetados são a agropecuária (1,5%) e a construção (4%).

Jovens e mulheres aparecem como os grupos mais vulneráveis. Entre as mulheres, 35,4% estão em ocupações afetadas, contra cerca de 25% dos homens. Entre jovens de 14 a 29 anos, a taxa chega a 35,9%, bem acima dos 25,7% registrados entre trabalhadores com 60 anos ou mais.

A pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV IBRE, Janaína Feijó, uma das autoras do estudo, explica que as mulheres estão mais concentradas em setores como serviços e comércio e em funções com maior grau de repetição. Já os jovens, segundo ela, tendem a ocupar, no início de carreira, posições que exigem menos habilidades socioemocionais e mais atividades operacionais e repetitivas.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram dados da PNAD Contínua, do IBGE, com o índice de exposição à IA elaborado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Feijó ressalta que estar em uma ocupação altamente exposta à IA não equivale, necessariamente, à perda do emprego: o indicador mede o potencial de automação das tarefas, o que inclui o uso da tecnologia para aumentar a produtividade, o que poderia gerar ganhos econômicos.

Ainda assim, a pesquisadora alerta que trabalhadores mais escolarizados e em ocupações mais bem remuneradas tendem a se adaptar melhor às mudanças tecnológicas, o que pode aprofundar as desigualdades na distribuição das ocupações.

Adaptação constante e coletiva

Tania Casado, professora titular da FEA/USP e coordenadora dos Escritórios de Desenvolvimento de Carreiras da USP e da FIA, destaca que a IA combina três características que ampliam seu impacto em relação a ondas tecnológicas anteriores: é mais abrangente, avança mais rapidamente e incide sobre tarefas cognitivas.

“É uma adaptação que precisa ser cada vez mais constante porque a evolução da tecnologia é mais rápida. E aí é preciso entender como se reorganizar, em um cenário sem regras claras ou manuais para o uso da IA e em que as carreiras são cada vez menos lineares”, afirma.

Para Soares, a capacidade de lidar com a inteligência artificial tende a se tornar uma habilidade digital essencial no mercado de trabalho, não no sentido de dominar a tecnologia em nível técnico, mas de saber utilizá-la de forma aplicada no dia a dia profissional, assim como ocorre hoje com outras ferramentas digitais.

Nina da Hora, porém, alerta que o debate sobre futuro do trabalho frequentemente reduz a adaptação a uma questão individual quando, na verdade, ela é coletiva. A discussão sobre habilidades, avalia, costuma pressupor “um trabalhador formal, urbano, de colarinho branco” — em um país em que quase 40% da força de trabalho está na informalidade.

“A habilidade verdadeiramente escassa é o julgamento crítico sobre a tecnologia, ou seja, saber quando usar, quando recusar, quando o resultado está sutilmente errado […]. Esse julgamento não se forma com curso de seis horas, mas com educação humanística, leitura densa, capacidade de argumentação, contato com filosofia da técnica”, ressalta.

A cientista da computação propõe eixos de atuação que incluem fortalecer a educação básica, integrar a IA ao ensino profissionalizante, criar programas de requalificação contínua para trabalhadores e alinhar a política industrial à cadeia internacional da inteligência artificial.

Pensar o lugar do Brasil na divisão internacional do trabalho é igualmente central, segundo os pesquisadores. Sem avançar na produção de tecnologia, o país tende a se manter como consumidor de alta tecnologia e fornecedor de dados, destaca Soares.

“Eu estou convencido que é definitivamente a onda tecnológica mais transformadora que a gente vai passar. A velocidade é que é a grande dúvida”, conclui o pesquisador.

(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Freepik/DC Studio)

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