A adoção do sistema foi uma resposta aos problemas de erosão que afetavam fortemente as lavouras (Foto: Reprodução/Magnific)
Paraná protege lavouras – Entre 35 milhões e 40 milhões de hectares são cultivados atualmente no Brasil utilizando o sistema de plantio direto, conforme dados da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (Febrapdp). O método, amplamente empregado na produção de grãos brasileira e presente também em países como Estados Unidos, Argentina e Austrália, é considerado uma das principais transformações do manejo agrícola contemporâneo e teve no Paraná um de seus marcos históricos.
Apesar de pesquisas iniciais sobre a técnica terem sido conduzidas nos Estados Unidos ainda na década de 1940, foi no território paranaense que o plantio direto chegou pela primeira vez à produção comercial em larga escala. Isso ocorreu em 1972, no município de Rolândia, no Norte do Estado.
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A adoção do sistema foi uma resposta aos problemas de erosão que afetavam fortemente as lavouras naquele período e contribuiu para modificar a maneira como os agricultores passaram a manejar o solo.
Para o pesquisador Eduardo Fávero Caires, professor da área de Fertilidade do Solo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), as próprias dificuldades encontradas pelos agricultores foram determinantes para o aperfeiçoamento da técnica.
“No início, houve grandes dificuldades para sua implementação devido, principalmente, à necessidade de adaptação das máquinas agrícolas e aos problemas encontrados no controle mais efetivo das plantas daninhas. Nos primeiros 20 anos, até o início dos anos 1990, a área cultivada em plantio direto no Brasil cresceu muito pouco, alcançando apenas 1 milhão de hectares”, explica.
A adoção do método ganhou velocidade a partir dos anos 1990. Dados históricos da Febrapdp mostram que a área cultivada passou de 1 milhão de hectares na safra 1991/1992 para 18,7 milhões de hectares em 2002/2003.
Segundo Caires, a expansão foi favorecida pela criação de novos herbicidas para o combate às plantas daninhas, pelo aprimoramento dos equipamentos agrícolas e pela adaptação do sistema às regiões do Cerrado.
No modelo convencional, o solo costuma ser revolvido por meio de operações como aração e gradagem. No plantio direto, a semente é colocada em um sulco estreito, enquanto a estrutura da terra é preservada. A superfície permanece protegida por uma camada de palha, que atua na redução da erosão, na conservação da umidade, na estabilidade térmica e no estímulo à atividade biológica.
De acordo com Eduardo Caires, o sistema se apoia em três fundamentos: evitar o revolvimento do solo, manter uma cobertura vegetal permanente e promover uma rotação diversificada de culturas, incluindo espécies utilizadas especificamente como plantas de cobertura.
A adoção do modelo, porém, não ocorre de maneira imediata. É necessário planejamento para que a transição seja feita adequadamente.
O pesquisador afirma que os primeiros cinco anos estão entre os períodos mais complexos, já que é nessa etapa que ocorre a recuperação das condições físicas, químicas e biológicas do solo. “Depois, vem a fase de consolidação do sistema, que dura em média entre cinco e dez anos. Após esse período, inicia-se a fase de manutenção, quando os maiores benefícios do plantio direto passam a ser percebidos”, continua.
Quando a implantação é realizada de maneira adequada, o investimento inicial tende a ser compensado em um intervalo de quatro a seis anos.
Uma pesquisa publicada em 2025 pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), com apoio do Sistema FAEP, indica que aproximadamente 20%
dos produtores do Estado adotam o Sistema Plantio Direto (SPD) seguindo todos os seus princípios.
Outros 17,3% utilizam somente o plantio direto (PD), sem realizar a rotação de culturas. De acordo com os critérios estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), essa prática não caracteriza o sistema completo.
O levantamento também apontou uma relação entre a adoção adequada do SPD e a redução da erosão. As propriedades que seguem corretamente os princípios do sistema apresentaram os menores índices do problema. Entre os agricultores que ainda trabalham com o modelo convencional, por outro lado, 64% relataram
ocorrência de erosão nas áreas de cultivo.
O combate à erosão foi justamente uma das razões que levaram o produtor Rodolpho Luiz Werneck Botelho a adotar o sistema na propriedade da família, no final dos anos 1980. Atualmente presidente do Sindicato Rural de Guarapuava e vice-presidente da Aprosoja Paraná e da Febrapdp, ele avalia que ainda há uma compreensão incompleta sobre o funcionamento do plantio direto.
“Muita gente acredita que fazer plantio direto é apenas deixar de revolver a terra. Mas o sistema envolve a manutenção permanente da cobertura do solo, a rotação de culturas e o mínimo revolvimento possível. O ideal é que o solo permaneça coberto durante os 365 dias do ano, seja por palha ou por plantas em crescimento”, explica.
Na propriedade familiar, a produção segue um modelo de alternância entre diferentes culturas. No verão, são plantados soja, milho e, em parte da área, feijão. Durante o inverno, o cultivo inclui trigo, aveia e cevada, além da integração entre agricultura e pecuária.
Para Rodolpho Botelho, a variedade de culturas é um dos elementos fundamentais para o bom funcionamento do sistema.
Os benefícios do plantio direto vão além da conservação do solo. Com a ocorrência mais frequente de eventos climáticos extremos, o método também passou a ser considerado uma ferramenta de adaptação das lavouras. A presença contínua de cobertura vegetal diminui os efeitos da erosão provocada por chuvas fortes, facilita a entrada da água no solo e contribui para preservar a umidade durante períodos de estiagem.
“A palhada favorece a atividade dos microrganismos do solo. Parte desse material é decomposta e se transforma em alimento para a microbiota, contribuindo para um solo mais saudável. Em um cenário de excesso de chuva ou de secas prolongadas, manter o solo coberto e com elevada produção de raízes faz toda a diferença”, afirma Rodolpho Botelho.
Eduardo Fávero Caires ressalta que esses efeitos tendem a se intensificar conforme o sistema permanece implantado por mais tempo. “A principal alteração positiva ao longo do tempo é o aumento da matéria orgânica no solo. Isso melhora os atributos físicos, reduz a compactação, aumenta a infiltração e o armazenamento de água, amplia a disponibilidade de nutrientes e favorece a atividade biológica.”
Entre os desafios atuais do setor está a compactação do solo. O crescimento no tamanho e no peso das máquinas agrícolas aumentou a circulação de equipamentos nas lavouras e, consequentemente, a pressão exercida sobre a terra.
Para reduzir esse impacto, Rodolpho recomenda diminuir o tráfego de máquinas, optar por pneus mais largos, capazes de distribuir melhor a carga, e evitar a entrada de equipamentos no campo quando o solo estiver muito úmido.
O plantio direto também pode representar redução nos gastos da produção. A eliminação de etapas como aração e gradagem diminui o consumo de combustível, o desgaste dos maquinários e o número de horas necessárias para as operações agrícolas. Por outro lado, o sistema exige maior atenção ao controle químico das plantas daninhas, uma vez que parte do manejo anteriormente realizado de forma mecânica deixa de ser utilizada.
Segundo Eduardo Caires, apenas a retirada das operações de preparo do solo pode gerar uma economia estimada entre R$ 180 e R$ 350 por hectare.
Além da redução imediata dos custos operacionais, a adaptação da propriedade ao plantio direto pode produzir ganhos ao longo dos anos. “A melhoria que o sistema plantio direto proporciona nos atributos físicos, químicos e biológicos do solo também resulta em economia no uso de fertilizantes”, completa.
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(Com informações de Tribuna no Paraná)
(Foto: Reprodução/Magnific)
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