Federação Nacional dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação

Quase 70% dos brasileiros usam IA na rotina, mas confiam pouco na tecnologia
Apesar de ferramentas de IA terem entrado na rotina dos brasileiros, elas ainda geram desconfiança do público (Foto: Reprodução/Magnific/chamroeun4world)

Quase 70% dos brasileiros usam IA na rotina, mas confiam pouco na tecnologia

Ferramentas de IA já fazem parte do dia a dia de milhões de brasileiros, mas preocupações com privacidade, desinformação e mercado de trabalho persistem

Brasileiros usam IA – Para a estudante de Medicina Nathalia Sahione, de 20 anos, a inteligência artificial já se tornou parte da rotina. Aluna do sétimo período, ela utiliza a tecnologia para resumir conteúdos, praticar exercícios, compreender cálculos acadêmicos e auxiliar em atividades extracurriculares. Como integrante da atlética do curso, também recorre às ferramentas para desenvolver artes e obter sugestões de publicações para redes sociais.

O uso da IA se estende a situações diversas. Nathalia relata que já utilizou a tecnologia para estimar calorias consumidas, elaborar uma rotina de exercícios antes de contratar um personal trainer e até analisar sintomas apresentados por sua cachorra quando o animal passou mal. Após receber a avaliação da ferramenta, decidiu procurar atendimento veterinário.

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“A inteligência artificial me ajuda em praticamente tudo. Na faculdade, uso para resumir textos, treinar questões e entender cálculos. Na atlética, também já recorri à ferramenta para criar artes e conteúdos para as redes sociais. Quando a gente aprende a usar, a IA vira uma companheira. Não sou dependente, mas posso dizer que faz diferença” afirma.

A experiência da estudante acompanha uma tendência nacional. Pesquisa realizada pelo instituto Market Analysis aponta que 68% dos brasileiros já utilizam ferramentas de inteligência artificial em suas atividades diárias. Entre os usuários, 56% consideram esses recursos acessíveis e simples de operar, enquanto 52% afirmam que eles contribuem para aumentar a produtividade e a eficiência.

Apesar da ampla adoção, a confiança na tecnologia ainda enfrenta barreiras. Segundo o levantamento, 59% dos brasileiros afirmam não confiar plenamente nas informações produzidas por sistemas de IA. Além disso, apenas 40% dos entrevistados percebem uma aceitação positiva do uso dessas ferramentas em seus círculos sociais.

Na avaliação de Evelin Cardoso Gomes, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisadora do INCT IAmazônia, os benefícios da tecnologia são significativos, mas exigem responsabilidade na implementação e no uso.

“A Inteligência Artificial veio para ampliar as capacidades humanas, não substituí-las. A discussão hoje já não é mais se iremos adotar IA, mas de que maneira isso será feito. E é justamente aí que está o ponto essencial: adotar essa tecnologia sem critério pode ser tão prejudicial quanto não adotá-la. Por isso, mais do que abraçar os benefícios que a IA oferece, precisamos garantir que esse uso aconteça de forma organizada, ética e, acima de tudo, responsável. Porque a tecnologia, por si só, não define seu impacto. Quem define somos nós, pela forma como escolhemos utilizá-la”, diz.

A IA também está presente na rotina do estudante de Administração Fábio Augusto de Jesus, de 22 anos. Em sua casa, ele utiliza comandos de voz para controlar iluminação, reproduzir músicas e ajustar a temperatura dos ambientes. Além disso, recorre à tecnologia para organizar cronogramas e planejar eventos promovidos pela igreja que frequenta, onde atua como líder de adolescentes.

Os dispositivos utilizados por Fábio também incorporam recursos avançados. Seu fone de ouvido oferece cancelamento de ruído, integração com assistentes virtuais e comandos por voz. Já o smartwatch monitora atividades físicas, recebe notificações, permite atender chamadas e acompanha indicadores de saúde.

Foi justamente por meio desse relógio inteligente que o estudante identificou um possível problema de saúde. Após analisar um relatório sobre a qualidade do sono gerado pelo aparelho com auxílio de uma ferramenta de IA, recebeu a indicação de que poderia sofrer de apneia do sono. A suspeita o levou a procurar um especialista. Após exames e consulta com um otorrinolaringologista, o diagnóstico foi confirmado.

Embora reconheça a importância da tecnologia em sua rotina, Fábio admite que a dependência crescente da IA é motivo de preocupação. “Hoje, e isso me incomoda, digo que sou dependente. Já estou acostumado a dar comandos de voz, acabo entrando em uma zona de conforto e já não sou tão criativo” fala.

Além do receio relacionado à dependência tecnológica, a inteligência artificial desperta outras preocupações entre os brasileiros. O estudo mostra que dois terços dos entrevistados relatam algum grau de temor ao utilizar essas ferramentas. Entre os principais motivos estão questões ligadas à privacidade dos dados, à circulação de informações falsas e à possibilidade de substituição de trabalhadores por sistemas automatizados.

Receio no mercado de trabalho

No ambiente profissional, 38% dos brasileiros empregados afirmam temer perder espaço para a inteligência artificial. O índice é semelhante à média mundial, de 36%, mas inferior ao registrado em países como Peru, onde o percentual chega a 64%, e Equador, com 60%.

A preocupação é mais frequente entre trabalhadores das classes D e E, grupo em que o índice alcança 40%. Entre pessoas de 35 a 54 anos, o percentual sobe para 41%, mesma taxa observada entre as mulheres.

Marc Chevallier, engenheiro e sócio de uma empresa especializada em agentes de inteligência artificial, afirma que não vê a tecnologia como uma ameaça à sua atuação profissional. Pelo contrário: utiliza recursos de IA diariamente para analisar documentos, contratos, notas fiscais e processos licitatórios.

Para ele, os chamados agentes de IA representam uma transformação ainda mais profunda do que as ferramentas tradicionais de inteligência artificial.

“A inteligência artificial hoje é indispensável. Mas o que realmente transforma o mercado são os agentes: eles fazem apresentações, realizam compras, reservas e até respondem mensagens. Há alguns anos, isso parecia impensável” afirma.

Diferentemente dos sistemas convencionais, que se limitam a responder perguntas ou gerar conteúdos, os agentes de IA conseguem interpretar objetivos, planejar etapas e executar tarefas de maneira autônoma, automatizando desde compromissos simples até processos corporativos mais complexos.

Brasil fica abaixo da média mundial

O Brasil registra atualmente 49,8 pontos no IA Index, indicador que avalia a relação da população com a inteligência artificial em uma escala que vai de 0 a 100. O desempenho coloca o país abaixo da média global, de 54,5 pontos.

Com esse resultado, o Brasil ocupa a 30ª colocação entre 44 nações avaliadas, embora tenha avançado dois pontos em comparação com o levantamento realizado em 2025.

A Market Analysis, responsável pelo estudo, classifica a pesquisa como uma oportunidade de inserir o Brasil em uma discussão internacional que ultrapassa o campo tecnológico. Segundo o instituto, os resultados mostram que os brasileiros mantêm uma relação equilibrada com a inteligência artificial: ao mesmo tempo em que reconhecem as vantagens e utilizam a tecnologia com frequência, também demonstram preocupação com seus possíveis impactos.

Na avaliação da entidade, essa combinação entre adoção crescente e postura crítica representa uma informação relevante para empresas, formuladores de políticas públicas e para a sociedade em geral.

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(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Magnific/chamroeun4world)

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