Radioterapia produzida em MS busca ampliar acesso ao tratamento contra o câncer. (Foto: Reprodução/Magnific/DC Studio)
Tratamento de tumores – Uma tecnologia voltada ao tratamento de tumores superficiais busca mudar a forma como parte dos casos de câncer é encaminhada para a radioterapia no Brasil. Fabricados em Campo Grande, os equipamentos de radioterapia superficial da Safe Life utilizam ortovoltagem para tratar lesões próximas à superfície do corpo e podem ampliar a capacidade de atendimento dos hospitais, inclusive do Sistema Único de Saúde (SUS).
A empresa sediada na capital de Mato Grosso do Sul é atualmente a única fábrica de equipamentos de radioterapia superficial da América Latina e a sexta no mundo a dominar essa tecnologia específica. Sob a direção do médico rádio-oncologista Leonardo Alves e de Themis de Oliveira, diretor de Relações Institucionais, a fábrica produz para o mercado sul-americano.
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Uma tecnologia para cada tipo de tumor
A lógica por trás da tecnologia é a chamada “hierarquia da tecnologia”, conceito usado por Leonardo Alves para defender que diferentes casos devem ser direcionados aos equipamentos mais adequados à profundidade e à complexidade do tumor.
No Brasil, segundo ele, grande parte dos casos de radioterapia é encaminhada para aceleradores lineares, aparelhos de alta energia que custam cerca de US$ 1,5 milhão e exigem a construção de bunkers de concreto maciço avaliados em até R$ 4 milhões.
“O Brasil não faz na radioterapia uma coisa que se faz na Europa e nos Estados Unidos, que é a hierarquia da tecnologia”, explica Leonardo Alves.
Para ilustrar a diferença, ele compara a escolha do equipamento na radioterapia com a investigação de problemas cardíacos: “Se você sente dor no peito, faz primeiro um eletro, que é rápido e barato. Se precisar de algo mais, vai para o ecocardio, depois para a tomografia. Na radioterapia, hoje, colocamos o caso mais simples no equipamento mais caro”.
A proposta da radioterapia de ortovoltagem é justamente atender aos tumores superficiais com uma tecnologia específica. Enquanto um acelerador linear trabalha na casa dos milhões de Volts para alcançar tumores profundos, as máquinas da linha WCR operam na casa dos 1.000 Volts e são destinadas ao tratamento da superfície.
Um dos usos é o câncer de pele, o tipo de câncer mais comum em seres humanos. Nesses casos, o tratamento pode ser realizado de forma ambulatorial, sem necessidade de anestesia ou de salas cirúrgicas complexas.
Controle diário da radiação
A utilização de equipamentos de menor complexidade não elimina a necessidade de controle rigoroso da dose de radiação. Antes do início dos tratamentos, as máquinas passam diariamente pelo matchek, teste de aferição realizado com equipamentos externos.
O procedimento simula a entrega da dose de radiação em sensores dispostos como em um tabuleiro. O objetivo é verificar tanto a intensidade da radiação quanto a periferia do feixe. Caso seja identificado qualquer desvio milimétrico, o sistema é recalibrado.
Segundo as informações apresentadas pela empresa, esse protocolo permite que os equipamentos sejam utilizados tanto pelo SUS quanto por instituições privadas de referência em oncologia, entre elas o Hospital Sírio-Libanês e o A. C. Camargo.
Liberação de aceleradores para casos mais complexos
A possibilidade de deslocar parte dos tratamentos para equipamentos específicos também está relacionada à capacidade dos serviços de radioterapia.
A estimativa apresentada é que 15% dos cânceres atualmente tratados em aceleradores lineares sobrecarregados poderiam ser migrados para equipamentos de radioterapia superficial. Com isso, os aceleradores poderiam receber pacientes com tumores que exigem maior profundidade, como alguns casos de câncer de pulmão ou mama.
“Se eu tirar esses 15% de pacientes e colocá-los em uma máquina nossa, eu abro mais 15 vagas no acelerador para casos agressivos de pulmão ou mama. O ganho de escala permite aumentar a capacidade de atendimento oncológico em até 30%”, destaca Leonardo Alves.
O aumento da capacidade é especialmente relevante diante da legislação que estabelece prazo máximo de 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento oncológico. Atualmente, o Brasil atinge essa meta em apenas 32% dos casos.
Há também uma diferença de custo de infraestrutura. Enquanto o conjunto formado por máquina e bunker convencional ultrapassa R$ 10 milhões, a solução de radioterapia superficial apresentada pela empresa gira em torno de R$ 2,1 milhões, sendo R$ 2 milhões referentes ao equipamento e R$ 100 mil à sala blindada simplificada.
Tecnologia desenvolvida em Mato Grosso do Sul
Além da fabricação, a unidade de Campo Grande também desenvolve soluções próprias. Entre elas está o Lumina SRT, cone aplicador criado na cidade para o tratamento do câncer de reto.
A técnica tem como base o trabalho do dr. Jean Papillon e permite realizar radioterapia intrarretal, direcionando o tratamento ao tumor por dentro, de forma superficial.
“Hoje já temos estudos mostrando de 80% a 90% de preservação do reto e do ânus e 80% menos utilização de colostomias definitivas”, afirma Leonardo Alves.
A proposta é evitar que o paciente precise utilizar bolsas de colostomia pelo resto da vida e reduzir complicações relacionadas a procedimentos cirúrgicos invasivos, como disfunções anorretais e eréteis.
Transferência de tecnologia e produção nacional
A fabricação em Campo Grande começou a partir de um acordo de transferência de tecnologia com uma fábrica inglesa. Atualmente, 54% dos componentes utilizados são nacionais.
A unidade funciona sob demanda e está em processo de expansão para uma nova sede de 1,5 mil m², viabilizada pelo programa Prodes da prefeitura de Campo Grande.
A equipe responsável pela operação reúne profissionais de diferentes áreas. Leonardo Alves resume a composição como uma reunião de especialistas que chamou de “nerds” em seus respectivos campos.
“A ideia inicial foi reunir sócios de bom caráter e ‘nerds’ nas suas áreas: rádio-terapeuta, cirurgião, físico de radiação, engenheiro clínico e, agora, o Themis nas relações institucionais”, brinca Leonardo Alves, sobre a composição da equipe.
O quadro de funcionários e sócios inclui físicos de radiação, engenheiros clínicos, cirurgiões oncológicos e especialistas em Direito Regulatório. A concentração de profissionais dessas áreas também permitiu o desenvolvimento de inovações próprias e patenteadas em Mato Grosso do Sul, além da execução dos acordos de transferência de tecnologia com indústrias inglesas.
Expansão da produção
A fábrica tem capacidade para produzir entre 10 e 12 máquinas por ano e pode chegar a 18 equipamentos em regimes intensificados. A empresa já negocia com países vizinhos, entre eles o Chile.
Além dos equipamentos de radioterapia, a operação prevê o desenvolvimento futuro de outras tecnologias médicas, como tomógrafos e ressonâncias.
“Nossa expectativa no Brasil é de vender entre 150 e 200 máquinas”, projeta o diretor-geral.
A lógica defendida pela empresa é direcionar cada paciente ao equipamento compatível com seu caso: utilizar tecnologias mais simples quando o tratamento permitir e reservar os aceleradores lineares para situações que demandem maior profundidade. Nesse modelo, a expectativa é reduzir custos de infraestrutura e ampliar a disponibilidade dos equipamentos de alta energia para pacientes que realmente necessitam deles.
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(Com informações de Região MS)
(Foto: Reprodução/Magnific/DC Studio)
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